Now reading

Conto “A criada” de Clarice Lispector

Conto “A criada” de Clarice Lispector
Conto “A criada” de Clarice Lispector

Esta publicação é referente ao Projeto Clarice Lispector idealizado pela Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. A proposta foi de publicarmos no mesmo dia nossos comentários sobre cada um dos contos da escritora, que foram todos reunidos por Benjamin Moser no livro “Todos os Contos” da Editora Rocco. O conto de hoje é “A criada”, do livro “Felicidade Clandestina”.  A publicação da Marcia pode ser lida clicando aqui.

Neste conto, Clarice conta um pouco sobre uma empregada doméstica chamada Eremita.

Seu nome era Eremita. Tinha dezenove anos. Rosto confiante, algumas espinhas.

Pelo que ela conta, a moça era uma adolescente, ainda nova, e que precisava trabalhar em uma casa de família, talvez com sonhos de fazer algo diferente em sua vida.

Porque tinha suas ausências. O rosto se perdia numa tristeza impessoal e sem rugas. Uma tristeza mais antiga que o seu espírito. Os olhos paravam vazios; diria mesmo um pouco ásperos. A pessoa que estivesse a seu lado sofria e nada podia fazer. Só esperar.

Pois ela estava entregue a alguma coisa, a misteriosa infante. Ninguém ousaria tocá-la nesse momento. Esperava-a um pouco grave, de coração apertado, velando-a. Nada se poderia fazer por ela senão desejar que o perigo passasse. Até que num momento sem pressa, quase um suspiro, ela acordava como um cabrito recém-nascido se ergue sobre as pernas. Voltara de seu repouso na tristeza.

E Clarice diz que ela achava um atalho para a floresta, onde vivia cercada pela natureza, onde ela deveria servir a outros deuses.

Assim o conto se encaminha ao final. E ele é bonito nessas colocações das ausências de Eremita, quando ela mergulhava em seus sonhos desconhecidos, já que nunca teve a chance de contar para ninguém quais eram estes sonhos.

Mas eis que acho que Clarice estragou o conto no último parágrafo. Pode ser uma coisa minha. Um desconforto meu. Ela deu um desfecho pouco digno à moça que não teve chances de fazer nada além de sonhar com algo que não terá chances de colocar em prática em sua vida.

A única marca do perigo por que passara era o seu modo fugitivo de comer pão. No resto era serena. Mesmo quando tirava o dinheiro que a patroa esquecera sobre a mesa, mesmo quando levava para o noivo em embrulho discreto alguns gêneros da despensa. A roubar de leve ela também aprendera em suas florestas.

 

Written by

2 Comments
  • Marcia Reis disse:

    Realmente foi um desfecho um pouco chato. Infelizmente “bem comum” para quem tem empregada.

    Mas gostei dessas fugas da Eremita. Me identifiquei com ela nessas abstrações.

    Hug

    • Silvia Souza disse:

      Olá, Marcia!
      Eu também gostei. Achei que o conto estava seguindo um caminho lindo, da moça que tinha um mundo interior muito mais profundo do que se poderia supor. Estava adorando. Aí, veio o final e me desapontou um pouco.
      Beijo!

Instagram
  • #albertcamus #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #lamatseringeverest #citações #budismo #reflexõesdesilviasouza
  • #honorédebalzac #citações #trechosliterarios #amulherdetrintaanos #reflexõesdesilviasouza
  • #edmundburke #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #rubemalves #citações #reflexõesdesilviasouza