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Como a minha avó

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Como a minha avó

Minha avó paterna nasceu em 1920 e morreu em 1975. Eu a conheci muito pouco, porque ela morreu no dia de aniversário de 2 anos da minha irmã e eu não tinha nem 4 anos. Foi uma morte súbita, daquela que a maioria das pessoas gostaria de ter.

Ela era descendente de portugueses e vinha de uma família com algumas posses. Muito jovem, foi enviada a colégio interno mantido por freiras em uma cidade do interior do estado, distante cerca de 400 km da cidade onde morava seus pais, em uma época em que os deslocamentos não eram tão rápidos e eficientes quanto hoje em dia. Imagino sua solidão.

No colégio, aprendeu a tocar piano, a pintar quadros e tecidos, a fazer croché e tricô, a costurar, a cozinhar. Saiu uma perfeita esposa. Apenas não aprendeu a se conhecer e a escutar seus próprios desejos.

Logo que saiu do colégio, ela se casou, aos 18 anos, com um médico de sua cidade natal. Nove meses após o casamento, nascia o primeiro dos 6 filhos que teve, sendo que 5 deles foram meninos. Ficou viúva ainda jovem, após quase 30 anos de casamento. Passou a viver com os pais e ter sua vida controlada, não mais pelo marido, mas pelos pais e por seus 6 filhos.

Fico imaginando os sonhos que tinha; se conseguia viver um pouco através dos livros que lia; o quanto sua alma devia gritar, absolutamente presa naquele corpo, numa vida decidida por todos menos por ela mesma.

Por que resolvi falar da minha avó paterna hoje?

Quando eu era pequena e não se sabia ao certo com quem eu era parecida, eu me identifiquei ao olhar uma foto dela, em sua infância, com uma idade próxima à minha; eu a vi e disse que era eu. Apesar das mudanças que ocorrem ao longo da vida e de eu ter semelhanças com o lado materno, continuei muito parecida à minha avó. E não apenas fisicamente; também no jeito de ser, na ingenuidade, na forma de calar a voz interior e dar ouvidos, de forma excessiva, às opiniões e palpites dos outros, nos sonhos que ficarão guardados por toda a vida.

 

Vovó Lurdinha
Vovó Lurdinha

 

É claro que não fui criada em colégio de freiras, nem dei vazão a qualquer dom artístico (que acredito que não tenha). Cheguei a fazer 7 anos de piano. Aprendi a pintar tecidos e tive algumas bases de croché, tricô, bordado, costura e cozinha… mas nunca me identifiquei de fato com nenhum deles.

Também é certo que vivo em um mundo muito mais aberto, em que a mulher tem um pouco mais de voz na sociedade. Eu pude estudar, exercer minha profissão, ser responsável pela minha vida e tive a liberdade (muito sofrida) de optar pelo divórcio quando o casamento não me fazia feliz.

Mas a ingenuidade e a credulidade herdadas da minha avó trazem enorme sofrimento. Creio que mais hoje em dia do que ela devia sofrer naquela época. Vivemos na época da mentira, da enganação, do egoísmo e há mais formas de colocar em prática ideias más do que havia naquela época. A internet nos expõe excessivamente muitas vezes, mas também consegue manter o anonimato para quem sabe fazer tudo com muito cuidado. Há um mundo de maldade crescente sendo construído em todas as mídias sociais, na Internet, celular e o que mais houver.

Eu sempre tentei manter alguma confiança no ser humano. Porque sei que, caso essa confiança desapareça completamente, perderei a vontade de viver, por ver que a existência humana está definitivamente perdida. Não acho que tenha chegado a esse limite, mas estou bem próximo dele.

As mentiras e a maldade sempre existiram. Mas creio que elas vêm se propagando como uma epidemia fora de controle. Estou extremamente cansada. Tenho que perceber que ainda há sinceridade e sentimento de compaixão e amor verdadeiro no mundo.

Alguém será capaz de me mostrar?

– Sílvia Souza (18-06-2016)

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4 Comments
  • claudio kambami disse:

    Será que alguém deve te mostrar ou você quem deva treinar seus sentidos (não digo nem olhos pois esses traem) para ver que mesmo em meio ao Caos, sempre renascerá esperança.
    Silvia minha amiga não é agora que as pessoas são falsas, más e cruéis, apenas mudamos o cenário mas a humanidade continua da mesma forma que antes, porca, pois somos animais, sem caráter pois temos problemas na personalidade por culpa do complexo de “R” e inesperados pois sempre vemos ocorrer aquilo que nem imaginamos, o amor incondicional, a ajuda, o sentir afeto, enfim, vivemos entre o céu e inferno aqui mesmo, apenas cabe-nos aprender e tentar sobreviver em meio a essa diversidade. Nunca haverá um mundo perfeito, acredito que nem nos livros de contos de fadas há isso.
    Uma forma que encontrei de lidar foi não me isolar, se alguém me chuta ou me agride, haverão outros que me acariciam, e me colocam pra cima. Esse é o tempero da vida. Beijo em seu coração. <3 🙂

    • Olá, Cláudio!
      Obrigada de novo por tudo o que você escreveu! Você consegue me mostrar que ainda existem coisas pelas quais vale a pena viver… em especial, a família e os amigos.
      Só queria ser daquele tipo de pessoa com uma armadura mais resistente para aguentar essas pancadas da vida.
      Um beijo grande!

  • Carlos Moya disse:

    Ainda estou na praya. A facilidades pra nos comunicar abre nefecto moitas posiveis amistades. E non todas serán boas. Mais non estou disposto pel causa delas a renunciar a unha soa das excelentes. E voçe é uma. Um beijo.

    • Obrigada, Carlos!
      Adorei suas palavras! São essas pequenas coisas que me estimulam… as amizades boas, as demonstrações de carinho… o que ainda há de bondade e amor no mundo!
      Um beijo grande, com carinho!

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