21.03.2016

WPD

 

Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se e contente;
É um cuidar que ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís Vaz de Camões, in “Sonetos”

  Amor é um fogo que arde sem se ver; É ferida que dói, e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer; É um andar solitário entre a gente; É nunca contentar-se e contente; É um cuidar que ganha em se […]


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7.03.2016

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Título Original: Klingsors letzter Sommer

Primeira Publicação: 1919

Tradutor: Pinheiro de Lemos

Editora: Record (2003)

ISBN13: 9788501002402

Sinopse: O último verão de Klingsor é uma reunião de três pequenas obras-primas escritas na mesma época em que Hermann Hesse produziu duas de suas mais celebradas criações – Demian e Sidarta. 

O primeiro dos contos, Alma de criança, explora a gênese do sentimento de culpa e da angústia, através do relato das emoções de um garoto em relação ao pai. “Todos esses sentimentos de manifestavam no coração da criança da mesma forma que permaneceram: dúvida do meu valor pessoal, indecisão entre a auto-estima e o desânimo”. Como um Kafka às avessas, o autor constrói uma narrativa extremamente delicada, analisando o confronto entre o estranhamento, a mentira e a autoridade. 

Com o segundo episódio, Klein e Wagner, o que parece uma incursão de Hesse no gênero policial, mostra-se um mergulho ainda mais profundo nos temas já sugeridos a primeira narrativa, com uma história complexa de crime, castigo e redenção. “Sempre houve dois Friedrich Klein, um visível, outro secreto, um funcionário público e um criminoso, uma pai de família e um assassino”. Aqui o autor analisa a angústia, a culpa e o estranhamento conjugando a saga de um fugitivo com passagens de clássicos da filosofia de Schopenhauer e das obras de Goethe. 

Hesse oferece-nos uma alegoria repleta de discussões sobre o amor, a representação do mundo, a arte, a posteridade e a magia em O último verão de Klingsor. O autor narra os últimos meses de vida de um pintor expressionista, considerado por muitos como um retrato literário da natureza do escritor. É um ponto de partida para um relato que une a sabedoria de poetas chineses com a angústia de um artista diante das vicissitudes de sua vida e do legado de sua obra.

 

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Apesar de Hermann Hesse ter sido Nobel de Literatura em 1946, apenas vim a conhecê-lo em 2013. Pode ser que tenha lido alguma citação sua antes disso, mas tenho que reconhecer minha ignorância sobre esse escritor.

De certa forma, acho que isso foi uma coisa boa. Afinal, acredito que Hermann Hesse tenha entrado na minha vida no momento correto, estando eu já pronta para assimilar tudo o que ele escreveu em suas obras. Aconteceu a mesma coisa com outros grandes escritores, que chegaram no tempo certo; mas sobre os outros, contarei em outras oportunidades.

Eu passava por um problema de saúde e um enorme sofrimento emocional. Tentava buscar conforto em algumas leituras indicadas. Uma amiga tinha sugerido a leitura de “Amor em Minúscula” de Francesc Miralles. Foi uma leitura maravilhosa e que me apresentou a inúmeros outros escritores, além de me levar através de uma história de amor impossível (mostrando que eu não era a única que sofria por amores impossíveis).

No livro, Francesc Miralles coloca algumas citações de obras de Hermann Hesse que me trouxeram boas sensações. Fui atrás das obras do escritor e comprei “O Lobo da Estepe”, “Demian” e “Sidarta”. Foi um amor imediato!

Passei a procurar todas as publicações de Hermann Hesse em português, sendo que alguns livros de contos encontrei apenas em sebos; alguns se desfazendo de tão antigos. Li absolutamente tudo o que encontrei. Faltava esse livro e um último que está aguardando na minha estante, chamado “Felicidade”.

O livro “O último verão de Klingsor” é composto de 3 contos:

  1. Alma de Criança
  2. Klein e Wagner
  3. O último verão de Klingsor

Os contos desse livro são diferentes de outros contos dele que eu já tinha lido. Eles trazem um grande componente do egoísmo dos homens, do lado vil e mesquinho. Mas associado a esse componente, vem a percepção do errado e a culpa que castiga; aquela sensação de que alguém nos olha de forma estranha, quando somos nós mesmos que estamos nos sentindo errados perante nossa consciência.

Em “Alma de Criança”, ele conta a história de um menino que rouba alguns doces de uma gaveta do pai, quase como uma peraltice. Mas ele se nega a reconhecer o ato quando questionado e vai aumentando seu pecado ao inventar inúmeras mentiras na tentativa de escapar do crime. O grande cerne do texto é que o menino sabe que errou e que está errando sucessivamente e se condena enormemente por isso.

Os atos de nossa vida, que julgamos bons e dos quais falamos sem reservas, são quase todos daquela primeira categoria “fácil” e facilmente os esquecemos. Outros atos, dos quais temos dificuldade em falar, nunca mais os esquecemos; são de certo modo mais nossos do que os outros e projetam longas sombras sobre todos os dias de nossa vida.

Em “Klein e Wagner”, há mais uma história de um delito, cometido por um homem que está em sua fuga da Alemanha para a Itália. Ele tenta levar uma vida normal, tenta se aproveitar do fruto de seu crime. Mas sua consciência vai sugando suas atitudes para um fim do qual ele não consegue escapar.

Sim, era melhor dirigir por si mesmo e com isso ficar reduzido a cacos do que ser sempre conduzido e dirigido pelos outros.

Em “O último verão de Klingsor”, conto que dá nome ao livro, Hermann Hesse nos fala sobre um pintor expressionista, já consagrado, que começa a demonstrar algum cansaço com a vida, uma vida onde ele não se encaixa mais. Ele vive cercado de pessoas, amigos, mulheres, mas não consegue mais sentir uma harmonia entre suas ideias e aquelas das pessoas à sua volta.

Por que existia o tempo? Por que tinha de haver sempre essa idiota sucessão de uma coisa a outra e não uma simultaneidade ardente e capaz de saciar?

Gostei muito dos 3 contos. Foi um livro de leitura agradável, muitas reflexões, muitos ensinamentos… tudo o que eu gosto.

– Sílvia Souza

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  Título Original: Klingsors letzter Sommer Primeira Publicação: 1919 Tradutor: Pinheiro de Lemos Editora: Record (2003) ISBN13: 9788501002402 Sinopse: O último verão de Klingsor é uma reunião de três pequenas obras-primas escritas na mesma época em que Hermann Hesse produziu duas de suas mais celebradas criações – Demian e Sidarta.  O primeiro dos contos, Alma de criança, explora a gênese do […]



5.03.2016

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Título Original: Terre des hommes

Primeira Publicação: 1939

Tradutor: Rubem Braga

Editora: Nova Fronteira (15-04-2015)

ISBN13: 9788520940297

Prêmio: Grand Prix du Roman de l’Académie française (1939)

Sinopse: Em ‘Terra dos homens’, o autor relata suas memórias de piloto do correio aéreo francês entre 1926 e 1935, assim como suas primeiras aspirações na profissão e seu convívio com outros pilotos e amigos. Sem um fio narrativo definido, Exupéry utiliza passagens de sua experiência para dar suas impressões sobre o mundo, que se acostumou a ver do alto.

flrlines40

Esse foi mais uma leitura compartilhada com a Laynne do Blog Meu Espaço Literário. A Laynne se tornou uma grande amiga e essas trocas de leitura têm sido enriquecedoras.

Antoine de Saint-Exupéry é conhecido até os dias de hoje pela obra ‘O Pequeno Príncipe’. Era um piloto francês, trabalhando no serviço do correio. Nesse livro, ele conta um pouco sobre suas experiências, os riscos da profissão, seu aprendizado… tudo isso em uma época em que a tecnologia estava começando a ser desenvolvida e os voos dependiam da localização visual dos pilotos e copilotos. É algo até difícil de imaginar.

Embora eu não tenha pesquisado sobre a biografia do autor em detalhes, imagino que ele deve ter sofrido vários acidentes aéreos. Consta que quando ele se alistou para combater na Segunda Guerra com a Aeronáutica Francesa, ele sofria de muitas dores devido a inúmeras fraturas.

É um livro curto, quase na forma de um diário, sem conexão entre os capítulos. Em cada capítulo ele aborda um tema ou uma narrativa, pessoal ou envolvendo outros pilotos que trabalhavam com ele:

  1. A linha
  2. Os companheiros
  3. O avião
  4. O avião e o planeta
  5. Oásis
  6. No deserto
  7. No centro do deserto
  8. Os homens

Inicialmente, ele descreve um pouco do seu aprendizado, mas não no sentido técnico de saber manejar os equipamentos de um avião. Ele conta como aprendeu a evitar as montanhas, os locais perigosos, onde procurar ajuda se houvesse um acidente.

Descreve bem o que era olhar o mundo de cima, na visão do piloto de avião. E conta em maiores detalhes sobre o norte da África, em especial o deserto do Saara.

As duas narrativas que mais me surpreenderam e aumentaram um pouco minha angústia foram: de um acidente com um grande amigo dele na Cordilheira dos Andes e a descrição de como ele conseguiu sobreviver caminhando por dias em meio ao gelo, sem comida e sem ajuda; de um acidente envolvendo o próprio autor, dessa vez no deserto, sem saber com precisão sua localização, sem ter como pedir ajuda e sem saber em que direção caminhar. Esse último acidente mantém uma tensão constante. É interessante, porque sabemos que ele saiu com vida da experiência, mas são páginas e páginas tentando imaginar como isso aconteceu, já que tudo indicava que o desfecho não seria favorável.

É muito interessante ler as descrições até como uma forma de compreensão histórica de um momento ainda tão rudimentar perto do que temos hoje em dia, do ponto de vista tecnológico. Por outro lado, há trechos que parecem tão atuais, como se ele estivesse descrevendo nossa sociedade de hoje em dia.

Mas há alguns pontos negativos da narrativa, que eu, particularmente, senti. São momentos em que ele demonstra seu pensamento de país colonizador, como se fosse detentor das verdades e do conhecimento absoluto. Há um trecho em que descreve uma família do Paraguai, que o hospedou, e narra como se fossem seres exóticos, ainda não completamente civilizados.

Também narra, com muita passividade, sobre os homens que eram capturados pelos árabes e feitos de escravos até o momento em que não pudessem mais trabalhar e eram deixados para morrer nas areias do deserto. Essas descrições revoltaram-me. Talvez não houvesse nada que ele pudesse fazer realmente. Mas poderia demonstrar sua indignação na escrita, coisa que não senti.

Gostei da leitura. Achei que foi válida e interessante. Mas houve esses pequenos momentos que me causaram desconforto, acho que pelo fato de eu detestar qualquer tipo de injustiça ou subjugação.

Algumas citações do livro:

Trabalhando só pelos bens materiais, construímos nós mesmos nossa prisão. Encerramo-nos lá dentro, solitários, com nossa moeda de cinzas que não pode ser trocada por coisa alguma que valha a pena viver.

Ser homem é precisamente ser responsável. É experimentar vergonha em face de uma miséria que não parece depender de si. É ter orgulho de uma vitória dos companheiros. É sentir, colocando a sua pedra, que contribui para construir o mundo.

Querem confundir homens assim com os toureiros e os jogadores. Gaba-se o seu desprezo da morte. Mas eu dou bem pequena importância ao desprezo da morte. Se ele não tem suas raízes em uma responsabilidade aceita é apenas sinal de pobreza ou excesso de mocidade.

Se às vezes julgamos que a máquina domina o homem é talvez porque ainda não temos perspectiva bastante para julgar os efeitos de transformações tão rápidas como essas que sofremos.

Tudo mudou tão depressa em volta de nós: relações humanas, condições de trabalho, costumes… Até mesmo a nossa psicologia foi subvertida em suas bases mais íntimas. As noções de separação, ausência, distância, regresso são realidades diferentes no seio de palavras que permaneceram as mesmas. Para apreender o mundo de hoje, usamos uma linguagem que foi feita para o mundo de ontem. E a vida do passado parece corresponder melhor à nossa natureza apenas porque corresponde melhor à nossa linguagem.

Aqueles homens jamais haviam visto, antes, uma árvore, ou uma fonte ou uma rosa. Só através do Alcorão conheciam a existência de jardins em que murmuram regatos, pois assim é chamado o Paraíso. Esse paraíso e suas belas cativas é ganho pela morte amarga sobre a areia, a um tiro de fuzil de um infiel, depois de trinta anos de miséria.

Água, água que vale seu peso em ouro; água, cuja menor gota tira da areia a centelha verde de uma folha… Quando chove em algum lugar, um grande êxodo anima o Saara.

Um dia, entretanto, ele será libertado. Quando estiver demasiado velho para valer sua alimentação e suas roupas. Então lhe será concedida uma completa liberdade. Durante três dias, ele se oferecerá em vão de tenda em tenda, cada dia mais fraco. E no fim do terceiro dia, sempre bem-comportado, ele se deitará na areia. Eu os vi assim, em Juby, morrer nus. Os mouros assistiam à sua longa agonia, mas sem crueldade. E os meninos mouros brincavam ali, perto daquele escuro trapo humano, e toda manhã iam ver se ele ainda se mexia, mas sem se rirem do velho servidor. Aquilo estava na ordem natural das coisas. Era como se lhe houvessem dito: “Você trabalhou bastante, tem direito ao sono, vá dormir.” Sempre estendido no chão, ele sentia a fome, que é apenas uma vertigem, mas não a injustiça, que, esta sim, é um tormento. Secado pelo sol, recebido pela terra. Trinta anos de trabalho, e, depois, o direito ao sono e à terra.

– Sílvia Souza

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  Título Original: Terre des hommes Primeira Publicação: 1939 Tradutor: Rubem Braga Editora: Nova Fronteira (15-04-2015) ISBN13: 9788520940297 Prêmio: Grand Prix du Roman de l’Académie française (1939) Sinopse: Em ‘Terra dos homens’, o autor relata suas memórias de piloto do correio aéreo francês entre 1926 e 1935, assim como suas primeiras aspirações na profissão e seu convívio com outros pilotos e […]






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