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Assassinato

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Ela permanecia imóvel. Estava sentada na sala, olhando para o infinito. Não havia mais brilho nos seus olhos. Não havia mais sonhos pelos quais viver. Havia vida dentro dela porque o coração insistia em bater. Já não havia mais lágrimas.

Os olhos estavam voltados para dentro. Enxergavam a escuridão que a habitava. Buscavam, incansáveis, alguma essência humana, aquele algo de esperança que insiste em desafiar a certeza da morte.

Eles viram, bem ao longe, as grades que mantinham sua alma romântica trancada. Precisava se libertar. Mas não tinha a chave. Era mantida refém.

Finalmente respirou fundo e criou coragem. Saiu de sua imobilidade e levantou-se mecanicamente, carregando consigo a almofada que tinha no colo.

Caminhou pelo corredor estreito, que a comprimia ainda mais e entrou no quarto silencioso, mergulhado na penumbra.

A outra dormia. Ocupava a cama inteira. Espalhava-se, da mesma forma que se espalhara na vida dela e a sufocava. A dormente tinha crescido muito, engordado, se agigantado às custas do encolhimento dela. Ela tinha sido o alimento para a outra e estava cansada dessa situação.

Não via outra solução. Só um caminho se apresentava à sua frente, por mais doloroso que fosse percorrê-lo.

Sem fazer barulho, até mesmo contendo a respiração, segurou firmemente a almofada com as duas mãos e a apertou contra o rosto da adormecida. Demorou alguns segundos para que os braços e pernas acordassem e se pusessem a se debater, movimentando todo aquele peso parasita que não entendia o que estava acontecendo.

Ela continuava comprimindo a almofada com toda a sua força. E quanto mais via a outra se debatendo, mais seu ódio reprimido aumentava sua força.

Aos poucos ela percebeu que os movimentos da outra diminuíam.

Passou a notar apenas alguns espasmos.

Depois a inatividade completa. Os membros pendiam completamente inertes, pesados.

Ela ainda segurou a almofada por mais 5 minutos. Queria ter certeza. Sua raiva estava toda concentrada em seus braços que não relaxavam.

Quando a musculatura já apresentava cãibras de exaustão, ela soltou a almofada. Não havia mais respiração e os olhos da outra já não viam mais nada.

Ela se sentou na beirada da cama. Voltou a olhar para dentro de si mesma.

E, de repente, viu as grades da prisão se abrindo.

– Sílvia Souza

(13-08-2015)

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18 Comments
  • O amor nos deixa em estado catatônico mesmo. Eu mesma me transformo num ser mais maluco que o habitual.rs

    • Sílvia Souza disse:

      Eu, às vezes (muitas vezes, na verdade), me sinto presa, acorrentada e limitada por um lado de mim que tem medo, não quer arriscar, não quer sofrer, não quer viver.

  • M.Raydo disse:

    Agora faz as malas e corre!!! Esse peso vai começar a feder!kkk
    Brincadeiras a parte, saiba que tudo aquilo que te tira energia em exagero tem, mesmo, que ser mudado, transformado e retirado de sua vida!
    Reconhecer o que te faz mal é o primeiro passo, agora, levante e vai em busca do que te faz feliz! 🙂

    • Sílvia Souza disse:

      Não achou maluco esse texto?

      • M.Raydo disse:

        Achei legal pra caramba! Um climão desafiador e com um fim drástico! Adoro quando o personagem resolve reagir! Ei, desde que seja apenas uma história… nada de sair por aí sufocando as pessoas!kkk

  • Sílvia Souza disse:

    Não vou sufocar “pessoas”, mas adoraria “matar” meu lado mais crítico, castrador, medroso…
    Preciso voltar a me jogar para a vida!

  • M.Raydo disse:

    Pois é! Apoio total! Jogue-se! Ficar nestas de relembrar um passado maravilhos, ou não, não te dá a oportunidade de viver novas possibilidades. Deixe o saudosismo para o futuro! 🙂

  • Juliana Lima disse:

    Esse texto é de sua autoria Sílvia?

  • Tina disse:

    Nossa Silvia, este texto não poderia vir em melhor hora.
    Preciso tomar decisões na minha vida.
    gratidão!

    • Silvia Souza disse:

      Que bom que meu texto possa ter ajudado de alguma forma…
      Tomar decisões não é fácil… colocá-las em prática é ainda mais difícil…
      Boa sorte!
      Se precisar trocar ideias, estou aqui…
      Um ótimo final de semana!
      🙂

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