A praia
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Amor maduro

Amor maduro
Amor maduro

Quando somos jovens e encontramos uma paixão, não conseguimos tirar aquele véu colorido da frente dos olhos; o véu que faz com que o objeto da nossa paixão ganhe uma aura encantada; o véu que esconde todos os defeitos e exalta todas as qualidades. Esse véu transforma aquela pessoa comum em um ser especial, o ser que se encaixa perfeitamente aos nossos sonhos e desejos.

A culpa de não enxergamos perfeitamente o outro não é nossa nem do outro. É simplesmente por causa desse véu da paixão que deturpa a visão da realidade.

Mas existe uma pressa em constituir família. Todos cobram. O desejo de ter filhos chega. O receio de não encontrar outra pessoa fala mais alto. E os dois apaixonados, com suas visões transformadas, casam-se e fazem a promessa de amor eterno.

O problema é que o véu vai se desfazendo; as cores brilhantes vão se apagando. E chega um dia em que ele não existe mais. E passamos a realmente ver a pessoa para quem fizemos todas aquelas promessas. Será que, quando nossa visão torna-se nítida, desejamos confirmar nossas juras? Ou estamos arrependidos? Se estivermos arrependidos, teremos coragem de romper com a nossa palavra para escolhermos outro caminho ou permaneceremos na mesma companhia, acreditando sermos capazes de reacender a paixão ou de viver do carinho que porventura exista?

Aquele que tem a felicidade de olhar para o parceiro, vê-lo de verdade e, ainda assim, ter a certeza da escolha que fez, consegue transformar seu amor juvenil, sua paixão inconstante, em um amor maduro.

Não acredito que esse amor maduro dependa da idade. Entendo esse amor maduro como aquele que permite enxergarmos o outro sem o véu mágico que enfeita tudo; vemos as qualidades, os defeitos, a realidade crua do dia a dia, e, ainda assim, apesar de todas as falhas que todos temos, ainda amamos aquela pessoa e queremos passar a vida ao lado dela.

Apesar de não achar que dependa da idade, acredito que as pessoas com maior vivência e maturidade tenham uma facilidade maior de desenvolver esse tipo de amor mais rápido e de mantê-lo com maior entrega e sinceridade.

De repente, esse amor surge. Aparece em nossa frente em um encontro casual e inesperado. Tentamos fazer o oposto do véu mágico da paixão, e passamos a tentar olhar com véus sujos e sombrios, no desejo de intensificar os defeitos e evitar que o amor cresça. Mas ele teima em ficar, porque é tarde demais. Já conseguimos ver o outro, ver a alma, o todo, compreendê-lo e acolhê-lo. Não existe volta. O amor maduro não se rompe com tanta facilidade quanto uma paixão intensa e breve. Ele insiste em ficar, porque ele é real e palpável e, nesse caso, o substantivo “amor” não deveria ser abstrato. Ele está ali, vivo, pulsando e crescendo.

Não importa que o outro não sinta o mesmo amor maduro. Importa o nosso. Aquele que nos ocupa e preenche. Aquele que nasceu, cresceu e ficou.

Outras paixões podem vir. Outros encantos. Outros carinhos.

Mas amor maduro mesmo, devem ser bem poucos que cabem dentro da gente.

– Sílvia Souza

 

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