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A rosa solitária

A rosa solitária
A rosa solitária

Ele estava ali. Olhava para todos os lados. Analisava, pensava e decidia. Ele a viu sozinha, isolada de todas as outras flores do jardim. Era bonita, delicada e solitária.

Aproximou-se e arriscou um contato. Fez um elogio, mas não qualquer elogio. Declamou um poema de amor dizendo que era aquilo que buscava. Ela não conseguiu ficar indiferente à melodia da sua voz e à beleza daquelas palavras. Olhou para ele e afrouxou um pouco seus espinhos, como quem despe uma armadura.

Ele sentiu que podia se achegar. Sem movimentos bruscos, declamando outras poesias de amor, as mais bonitas que conhecia, tentava alcançar o perfume raro que ela exalava. Já podia observar a delicadeza de suas pétalas, mesmo que ainda não se atrevesse a tocá-las.

Arriscou dizer que estava apaixonado por sua beleza. Ela, naquela solidão, desabrochou um pouco mais e expôs todos os tons suaves do rosa que a compunha. Ele se encantou com a raridade daquelas cores e com a facilidade com que ela desabrochava, pelo simples fato de escutar elogios e declarações de amor. Não estava ela já acostumada a escutar palavras de amor?

Não. Havia aqueles que tentavam se aproximar com grosserias e ela se fechava totalmente. Outros faziam elogios comuns, que não estavam à altura de sua beleza. Ela, ali isolada naquela solidão, única com aquelas cores e aquele encanto, nobre e rara, sonhava em escutar poemas de amor, em despertar um amor intenso e instantâneo e encontrar aquele que reconhecesse que não poderia viver sem sua beleza, seu perfume e seu encanto. Ela não se achava especial. Não. Ela apenas acreditava que chegaria aquele ser único, aquele que os poemas de amor juravam haver para cada um e nos quais ela acreditava com todas as forças.

Ele percebeu a fragilidade daquele coração e, encantado com sua inocência, disse que a amava como nunca tinha amado outra flor. Perguntou se poderia tocar uma de suas pétalas. Ela lhe permitiu porque tinha necessidade de carinho. Ele acariciou a maciez daquela superfície e pediu a permissão de guardar uma lembrança dela consigo.

Apesar da dor que sentiria, ela permitiu que ele arrancasse uma de suas pétalas… e ele retirou a mais bela dentre elas. Mas não se contentou com apenas uma. Foi arrancando cada uma delas sucessivamente, apesar do choro silencioso e resignado da bela rosa. Ela achava que tudo era parte da entrega por amor.

Depois de todas as pétalas arrancadas, da rosa desfeita, do perfume dissipando-se ao vento, ele partiu em sua busca pela próxima flor solitária daquele ou de outros jardins.

– Sílvia Souza

 

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14 Comments
  • Carlos Moya disse:

    É uma história triste que reflete uma generosidade imerecida. Eu não deixo que ninguém corte rosas no jardim, as cuido para preencher o meio ambiente e suas cores iluminem os dias de verão. O que seria um verão sem rosas? Hoje adicionan aos lírios e flores de jasmim, aquela arbore que a noite desfralda suas pétalas. Eles espalharam um cheiro tão intenso que não podia evitar um espirro estrondoso. Um abraço.

    • Você sabe que ao escrever essa história, eu pensei profundamente em você cuidando das suas flores… E acredito que você ficaria bravo se uma das suas flores fosse tratada dessa forma…
      Infelizmente, a rosa da minha história não teve a sorte de nascer no seu jardim…
      Receba meu carinho!
      Beijo!

      • Carlos Moya disse:

        Estou muito satisfeito que a minha maneira de ser particular tem sido uma inspiração para você escrever essa história. Devo adverti-lo que, além de certa idade tênho mais manias que um personagem de Molière. Um abraço.

        • Quem não tem suas manias, Carlos?
          O importante é o que trazemos na alma, não é?
          Um lindo final de sábado (já é noite para você, não é?)!
          Beijo!

          • Carlos Moya disse:

            Obrigado por sua compreensão, mas acredite em mim quando digo muitas manias. Na verdade, está faltando apenas alguns minutos para ser domingo, o frio força a procura do refúgio no interior da casa. Espero que você tenha um bom fim de semana. Um abraço.

          • Bom dia, Carlos!
            Fiquei com vontade de escrever algo no Blog sobre as minhas manias e esquisitices, que não são poucas também… Tentarei fazer nessa semana… Posso citar que escrevi motivada por você?
            Tenha um lindo dia!
            Beijo!

          • Carlos Moya disse:

            Claro que você pode mencionar o meu nome na entrada, embora eu ouso chamar a atenção para os cuidados que deve ter quando estamos publicando algo sobre nós mesmos, com certeza este aviso não é necessário. E você sabe fazer uma demonstração do bom humor que anima essas confissões. Esta manhã, depois de votar, eu voltei para o meu ar. Foi uma boa manhã. Espero que o seu é ainda melhor
            Um abraço

          • Que votação que houve?
            Você se incomodaria de eu falasse com você através do Facebook?
            Abraço!

          • Carlos Moya disse:

            Eram eleições gerais para o Parlamento nacional. Claro que não me incomoda falar com você. Eu acho que haverá alguma dificuldade com a língua, o que pode adicionar um pouco de diversão. Um abraço..

          • Os nosos idiomas son parecidos … pode haber pequenas diferenzas, pero creo que conseguiremos comunicarnos …
            Quedei contento coa súa mensaxe en Facebook. Se non pense un exceso de liberdade de miña parte, gustaríame saber se podemos falar por correo electrónico ou mensaxes.
            Fico grata pola súa amizade.
            A tradución quedou boa?
            Bico!

          • Carlos Moya disse:

            Olá Sílvia. Tradução ficó perfeita, As regras para a língua galega são uma invenção recente, a academia foi fundada com a chegada da democracia, assim que escrevo como eu penso. Eu gosto muito de trocar e-mail com você, discutir notícias, palestras e trocar pontos de vista desta forma. um bico

          • Fico feliz que poidamos comunicarnos … Aínda que eu pense que sempre é posible que dúas persoas consigan comprender … basta un pouquiño de boa vontade …
            Meu correo é reflexoes@outlook.com.
            Un bico!

  • claudio kambami disse:

    A verdadeira descrição daquilo que chamo de pessoas usurpadoras da alma. Nos sugam de tal formar e com tanta voracidade após tal “sutileza” que ao percebermos já e tarde e estamos em plena fraqueza. Lindo isso Silvia! <3

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