O ninho vazio
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A professora substituta

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A professora substituta
A professora substituta

A cada ano que começa, fazemos nossos planos e promessas. Mas quando se é criança, a mudança do ano não significa muita coisa. Então, ela não tinha como prever as dificuldades e desafios que teria que enfrentar. Todas as relações, contatos, atividades, tudo era novo e, a cada dia, fazia novas descobertas.

A primeira novidade que o ano trouxe consigo foram os óculos que a menina passou a usar. As crianças não usavam óculos naquela época. Os pais nem mesmo levavam ao médico que examinava os olhos. Mas houve um dia em que perceberam que ela não enxergava.

Os óculos foram obrigatórios e arrastavam consigo o estigma dos quatro olhos, as piadas, as risadas. Ela tentava ignorar, como seu pai tinha lhe ensinado. Fingia que não escutava e não respondia. Mas lá no fundo, no seu coraçãozinho, ela sentia uma dor aguda a cada vez que percebia que falavam dela. Ela mantinha seu ar sério e concentrado, mas tinha vontade de chorar, vontade que ela engolia e comprimia seu peito.

O fato é que não eram apenas os óculos. Ela também era gordinha. E não havia crianças gordinhas naquela época. Ela era diferente em quase tudo: era gordinha, usava óculos, era dentucinha, tinha aqueles olhos azuis tristes, era calada, séria e inteligente… e vivia no seu mundo particular, onde não permitia que ninguém entrasse.

Sentia proteção em casa, mas a cada dia tinha que travar novas batalhas naquele mundo que lhe era hostil. Mas ela não relutava, não brigava, não reclamava. Era-lhe dito que ela era a mais velha e precisava dar exemplo. E ela sentia o peso da responsabilidade aos sete anos de idade.

Ela queria fazer amigos, conhecer pessoas, conversar com as outras meninas.

Houve um dia em que a professora precisou faltar. Em seu lugar, veio uma professora substituta que era o terror da escola. Todos conheciam sua fama de ser muito exigente e cruel. Uma parte da aula já tinha passado e a professora substituta mantinha seu ar sisudo e gritava muito para manter a ordem na sala de aula. De repente, a menina percebeu que estavam sendo passados bilhetinhos entre os alunos… bilhetinhos que insultavam a professora. Um desses bilhetinhos chegou até ela e ela o repassou. Todos riam e sussurravam bobagens para irritar a professora.

Em meio à desordem, a menina sentiu-se parte da classe, do grupo, participando da transgressão coletiva, mas participando… o que para ela, era o que realmente importava.

Ele recortou um pedaço de papel e resolveu escrever seu próprio bilhete de insulto… algo que ela iria criar e passar adiante; talvez aumentasse seu destaque no meio da turma. Tentou escrever escondido, mantendo o fragmento de papel embaixo da carteira, onde ficasse oculto.

Mas ela não foi feita para mentir; não sabia cometer crimes; não tinha a esperteza dos malandros. Enquanto escrevia o pequeno papel, foi sentindo um calor subir por todo o corpo e percebeu as faces pegando fogo. Ela confessava seu pecado sem dizer uma única palavra.

A professora se aproximou dela e pediu para ver o que ela escondia embaixo da carteira. Ela entregou a tira do papel, onde se lia “A professora é” e nada mais. E a professora, irada com o comportamento da classe, perguntou o que ela iria escrever no papel. E a menina, pega em flagrante, com o coração quase saindo pela boca, as mãos tremendo, o estômago doendo, dizia apenas “Eu não ia terminar de escrever!”. Repetia a mesma frase, como se tentasse convencer-se a si mesma da verdade daquela afirmação.

Ela voltou a se recolher em sua fortaleza interior, naquele lugar secreto onde apenas ela podia entrar e onde ninguém podia feri-la ou magoá-la.

E tentou não mais sair do seu lugar secreto.

– Sílvia Souza

 

 

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6 Comments
  • É autobiográfico, né? E por acaso, a menina por trás dos óculos seria você? Gostei muito.

  • laynnecris disse:

    Que sensibilidade ao traduzir de uma forma tão singela o terror que é viver este tipo de agressão.

  • Simone Karaatli disse:

    Silvia querida! Você era linda e uma fonte de inspiração para mim… Sentia profunda admiração por você, tanto que nunca me esqueci do seu rosto, do seu nome. Me lembro que, certa vez, te convidei para dormir na minha casa ( você queria) mas, sua mãe não deixou..rs
    Bjos!

    • Silvia Souza disse:

      Oi, Simone!
      Que bom você deixar um comentário nessa publicação… que representa tanto daquela época da escola…
      Você foi minha primeira amiga! Não é incrível?
      Obrigada por tudo o que você escreveu.
      Espero que você esteja bem aí. Tenho pensado muito em você com esses últimos eventos e as guerras aí do lado.
      Um beijo grande, com carinho!

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