Now reading

A professora de Geografia

Solidão
Next post
A professora de Geografia
A professora de Geografia

As aulas começaram. A escola era outra. Seriam muitas matérias novas e muitas professoras diferentes. Parecia que tudo estava mudando ao mesmo tempo. Escola, amigos, professores… mas o corpo mudava também. A menina estava crescendo rápido; já era uma das mais altas da classe. Os seios surgiram, aumentaram e causavam dor, desconforto e vergonha. Não tinha como escondê-los. E, como se não bastasse, a menina precisou colocar aparelho nos dentes. Era feio, passava por fora de sua boca e tinha que ser preso por uma correia que ficava atrás de seu pescoço. Ela não se achava bonita. O aparelho, os óculos, a presilha nos cabelos claros, o corpo se transformando antes dos das outras meninas… ela se sentia grande e disforme… e tudo o que ela mais queria era passar despercebida das outras pessoas. Mas achava que isso era impossível.

Ela tentava entrar quieta nas aulas, falar o mínimo possível e sair sem ser notada. Tentava fazer tudo certo, para que não houvesse nenhum detalhe que pudesse atrair a atenção sobre si.

O maior terror da escola era a professora de Geografia. Todos sabiam que ela gritava, aterrorizava os alunos, mandava qualquer um que abrisse a boca para a diretoria. Sua fama a precedia. No dia da aula de Geografia, todo o material precisava estar lá: livro, caderno, Atlas, caderno de desenho, lápis de cor… nada podia faltar. A professora passava de carteira em carteira conferindo o material, carimbando tudo com seu próprio carimbo e causando um terror psicológico em todas aquelas crianças de 10 anos de idade.

A menina ia e voltava da escola a pé. Carregava o peso enorme do material de Geografia, mas não podia haver o menor risco de algo ser esquecido, independentemente se houvesse uma chuva torrencial ou um calor de 40 graus.

Passava pelas aulas silenciosa, atenta e amedrontada.

Quando a prova chegou, os alunos tinham que saber todos os países e suas capitais… todos… com suas localizações… e todos os mares, lagos, oceanos. E, na prova, precisavam pintar os mapas, seguindo as orientações precisas da professora. Não podia haver falhas.

A menina fez a prova quase inteira… sabia tudo… mas faltou tempo e um dos mapas não pôde ser colorido até o final. Sua prova fora retirada. Não havia o que ela pudesse fazer. Ela nem mesmo se levantou da carteira. Chorava convulsivamente, desesperada, como se toda sua vida dependesse daquela prova e das cores que daria aos países do mundo. Nada a consolava. Nenhum colega conseguia acalmá-la.

Quando a nota chegou, a própria menina não acreditava. Era um 9,0. Afinal, não tinha sido tão ruim assim.

A professora de Geografia foi a mesma por 4 anos. O terror inicial que ela causava foi se transformando ao longo dos anos. Ela foi, progressivamente, se tornando uma das mais próximas, das mais amigas, das mais queridas. Nas viagens da escola, ela sempre estava presente.

Quais não seriam os seus próprios medos e traumas ao enfrentar as crianças com tanta hostilidade no início? Talvez ela precisasse apenas de carinho e compreensão. Talvez a menina e seus colegas poderiam ter dado isso desde o primeiro dia. Ou não. Quem poderia saber.

A professora de Geografia já não está mais nesse mundo. Ela partiu. Mas essa turma de alunos, a quem ela ensinou durante 4 anos, tem lembranças maravilhosas; mesmo que as primeiras lembranças sejam assim tão terríveis.

– Sílvia Souza

 

Written by

Instagram
  • #francescoalberoni #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #honorédebalzac #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #JaimeDeBalmes #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #jamesbaldwin #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #mikhailbakunin #citações #reflexõesdesilviasouza