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A praia

Amor maduro
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A praia

Os pais organizaram a viagem de férias. Levariam as três meninas para a praia. Iriam também os avós, os tios e a prima. Encheram as duas Caravans da Chevrolet com uma mudança: malas, pranchas, comida para a semana de férias e crianças entusiasmadas em sua primeira viagem para a praia.

O pai dirigia um dos carros e o tio dirigia o outro. As meninas queriam ir sempre juntas, rindo e brincando. Nossa menina era a mais velha. Ela tentava brincar com a irmã e a prima, mas ela não se sentia muito bem em viagens de carro. A mãe lhe dava um remédio para que dormisse e tolerasse as muitas horas de viagem naquelas estradas estreitas e sinuosas em direção ao litoral.

Eles tinham alugado uma casa. Não era de frente para o mar, mas eles conseguiam todos caminhar até chegar à praia. Precisavam carregar o guarda-sol, as cadeiras, as bolsas, as pranchas; e todos precisavam ajudar. Não havia o peso dos cremes e protetores solares. Eles não existiam ainda.

Nossa menina, com sua pele branca, seus cabelos loiros e olhos azuis, iria sofrer suas primeiras bolhas e queimaduras causadas pelo sol.

Eles chegaram à casa no meio da tarde. Tiraram as malas. Levaram tudo para dentro. Não era uma casa nova nem bonita, mas era tudo novo e encantador para as crianças. A avó gostava de colocar todos para trabalhar: lavaram toda a louça, limparam toda a casa, guardaram toda a comida.

Mas a menina estava ansiosa para ver o mar. E não era possível ver o mar da casa. Depois de tudo organizado, arrumado, limpo, ela foi colocar seu maiô vermelho, calçou um chinelo e saíram todos em direção à praia. Ainda distantes, ela já escutava o som das ondas que tocava sua melodia inconstante. Caminharam algumas centenas de metros, até que começaram a ver as areias grossas, de um tom difícil de definir, mas mostrando seu brilho que ainda refletia os raios de sol do poente.

Eles chegaram mais perto e ela pisou na areia. O pai pediu para que ela tirasse o chinelo e sentisse a areia diretamente nos seus pés infantis. Ela pisava na areia solta e áspera e seus pés iam sendo envolvidos como em um abraço.

A praia era larga e tinham que andar bastante até chegar ao mar.

Ela olhava admirada aquela imensidão de água que se ligava ao céu, mostrando o contínuo da natureza. As ondas formavam espumas brancas que iam e vinham sem interrupção. Ela não sabia física e não entendia o movimento eterno das ondas. Apenas captava sua beleza e a tranquilidade que aquela imagem lhe trazia. O céu, o mar, o vento soprando nos seus cabelos, o som das ondas, constante e arrítmico.

O pai pegou uma concha que fora deixada pelo mar, como um presente, e pediu para que ela colocasse no ouvido. E ela escutou a música que havia na concha, como se a concha guardasse dentro dela todas as notas e os instrumentos para tocá-las.

A água do mar era fria. E salgada. Era a primeira vez que ela colocava água salgada na boca. Mas não a incomodou. Era tudo tão lindo, tão mágico, uma conexão tão perfeita com tudo aquilo que não tinha sido criado pelas pessoas, que nada seria capaz de incomodá-la.

– Sílvia Souza

 

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