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“A legião estrangeira” #9: “Evolução de uma miopia”

“A legião estrangeira” #9: “Evolução de uma miopia”
“A legião estrangeira” #9: “Evolução de uma miopia”

Em parceria com a Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários, tenho comentado cada um dos contos escritos por Clarice Lispector, todos eles reunidos no livro Todos os Contos, publicado pela Editora Rocco e organizado por Benjamin Moser, um estudioso da vida e obra da escritora. Hoje vou comentar o conto Evolução de uma miopia, que faz parte do livro A legião estrangeira. A publicação da Marcia pode ser lida clicando-se aqui.

Tenho que confessar que os contos deste livro (A legião estrangeira) não têm me agradado particularmente. Tenho tido dificuldade em comentá-los, porque não me sinto envolvida emocionalmente.

Este conto nos apresenta uma criança, um menino, sem uma idade definida, mas sabemos que ele é bastante esperto, talvez inteligente, com grande percepção do ambiente e das pessoas à sua volta e de como se comportar para atrair a atenção dos adultos. Além disso, ele usa óculos por ser míope.

É do tipo de criança que sabe exatamente o que fazer para agradar, para assumir um papel dentro do esperado de quem estiver à sua volta.

Se era inteligente, não sabia. Ser ou não inteligente dependia da instabilidade dos outros. Às vezes o que ele dizia despertava de repente nos adultos um olhar satisfeito e astuto.

Ele foi avisado que iria passar um dia inteiro na casa de uma prima. Não era uma pessoa próxima.

Essa prima era casada, não tinha filhos e adorava crianças.

Essa visita à prima ocorreria dentro de uma semana. Neste período, cresciam no menino as expectativas dessa visita, porque ele imaginava que a prima seria uma fonte extra de amor e que realizaria todas as suas vontades enquanto estivesse em sua casa. Imaginava como iria se comportar, se de forma natural ou se construiria algum “personagem” específico, como o menino bem-comportado ou engraçado ou triste. Tentava imaginar como seria seu dia lá, já que não haveria outras crianças com quem pudesse brincar.

Durante a semana que precedeu “o dia inteiro”, não é que ele sofresse com as próprias tergiversações. Pois o passo que muitos não chegam a dar ele já havia dado: aceitara a incerteza, e lidava com os componentes da incerteza com uma concentração de quem examina através das lentes de um microscópio.

Mas no tão esperado dia, ao chegar à casa da prima, vieram os fatos inesperados. E apesar da preparação que tinha feito durante toda a semana, o inesperado desequilibrou tudo.

No entanto, negligenciara um detalhe: a prima tinha um dente de ouro, do lado esquerdo.

E foi isso – ao finalmente entrar na casa da prima – foi isso que num só instante desequilibrou toda a construção antecipada.

(…)

Em seguida a surpresa do amor da prima. É que o amor da prima não começou por ser evidente, ao contrário do que ele imaginara. Ela o recebera com uma naturalidade que inicialmente o insultara, mas logo depois não o insultara mais. Ela foi logo dizendo que ia arrumar a casa que ele podia ir brincando. O que deu ao menino, assim de chofre, um dia inteiro vazio e cheio de sol.

No meio do dia, a partir do almoço, ele pôde sentir o amor completo da prima, mas era um amor de uma mulher que não conseguiu ter filhos, apesar de desejar. Clarice descreve como “o amor impossível”.

O momento de amor da prima, com a compreensão do menino, é descrito em dois parágrafos. O segundo desses parágrafos deveria ser um dos mais bonitos do texto, porque é justamente quando o menino capta esse amor incompleto e inatingível, porque a prima não terá nunca um filho que tenha saído de seu próprio ventre para amar. Mas eu não consegui entrar no espírito dessa descrição; não consegui porque não achei possível uma compreensão tão grande e tão profunda partindo de uma criança, mesmo o menino sento muito esperto.

Foi como se, naquele momento, a vida do menino também tivesse mudado; como se ele tivesse percebido o mundo e as pessoas de outra forma; como se retirar os óculos e olhar o cenário sem clareza ajudasse a enxergar melhor os sentimentos dos outros. E achei tudo isso complexo demais para uma criança, por mais inteligente que ela fosse…

Neste final, neste conto, não consegui compreender e aceitar o que Clarice quis transmitir.

 

 

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2 Comments
  • Marcia Cogitare disse:

    Oi Silvia, realmente tem sido difícil escrever sobre este livro. Também tenho sentido o desafio de ter que tirar o mínimo deles.

    Depois que já tinha escrito meus comentários sobre este texto, percebi que somos este menino. Desde muito pequenos somos incentivados a não sermos nós mesmos mas sim a assumir papeis diversos. Que muitas vezes tolhem nosso melhor lado.

    Hug

    • Silvia Souza disse:

      Não tenho dúvidas de que foi uma representação de quem somos, da nossa criação.
      Sempre assumimos papeis (ou máscaras) para conviver em sociedade.
      Será que nós mesmos conseguiríamos saber quem somos de fato?

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