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“A legião estrangeira” #8: “A solução”

“A legião estrangeira” #8: “A solução”
“A legião estrangeira” #8: “A solução”

Vou comentar aqui o oitavo conto do livro A legião estrangeira, A solução. Os contos de Clarice Lispector foram todos reunidos no livro Todos os Contos, da Editora Rocco. A Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários me convidou para compartilhar com ela as experiências dessa leitura. A publicação da Marcia pode ser acessada clicando aqui.

Não sei se eu compreendi este conto. Dentro da minha compreensão, posso dizer que não gostei muito dele. É um conto curto, de apenas 3 páginas. A personagem principal é Almira, uma mulher solitária, ansiosa, que engordara muito porque descontava sua ansiedade nos chocolates e que trabalhava em um escritório com outra moça chamada Alice. Almira considerava Alice sua amiga e fazia comentários sobre sua vida e sobre as coisas de que gostava. Almira acompanhava Alice no almoço e esperavam pela condução juntas. Mas Alice era indiferente a Almira e quase não comentava o que esta lhe dizia.

Houve um dia em que Alice chegou atrasada ao trabalho e estava nitidamente triste com algo que lhe havia acontecido. Almira fez tudo o que pôde para alegrá-la, buscando, com todas as forças, saber o motivo daquela tristeza. Convidou a amiga para almoçar, oferecendo-se para pagar pela refeição.

Mediante a insistência de Almira, Alice explodiu e saiu de sua indiferença:

– Sua gorda! disse Alice de repente, branca de raiva. Você não pode me deixar em paz?!

Frente a esta e outras agressões verbais em um momento de irritação de Alice, Almira não tolerou e enfiou um garfo no pescoço da “amiga”. Foi presa pelo ato e conseguiu finalmente encontrar companheiras na prisão.

É um tanto quanto insólito, não é? Acho que mostra as inúmeras faces ocultas que se escondem dentro de cada pessoa. Almira não parecia uma má pessoa e não percebia quando era inconveniente; provavelmente não tinha uma noção real de si mesma e das coisas à sua volta.

Alice era uma colega de trabalho que tolerava sua companhia. Mas em um momento de grande tristeza, tudo o que ela precisava era de ficar quieta em seu canto. Almira não percebeu este detalhe e também não soube compreender que aquela agressão não era realmente a ela, Almira, mas apenas uma forma de Alice externar seu sofrimento, agredindo a colega.

Entretanto, Almira era sensível, instável e não sabia ligar com sua ansiedade e suas angústias. Ela não pensou, não ponderou; agiu de forma reflexa contra aquela mulher que a agredia, como uma criança sem a noção moral do certo ou errado.

Cada um tem sua loucura, em maior ou menor grau; e é através dos véus dessa loucura que enfrentamos cada coisa que nos acontece. Nem nós mesmos conseguimos prever todas as nossas ações aos mais variados eventos. Temos que torcer para não nos depararmos com alguém cuja loucura seja tão descontrolada como a de Almira.

– Sílvia Souza

 

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2 Comments
  • Marcia Reis disse:

    Como dizem: Foi uma fatalidade.
    Mas acredito que Alice era uma xarope preconceituosa.
    Hug

    • Silvia Souza disse:

      Acho que era mesmo.
      Mas quantos traumas deviam estar guardados na outra moça…

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