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“A legião estrangeira” #7: “Viagem a Petrópolis”

“A legião estrangeira” #7: “Viagem a Petrópolis”
“A legião estrangeira” #7: “Viagem a Petrópolis”

Este é o sétimo conto do livro A legião estrangeira, que faz parte da obra Todos os contos de Clarice Lispector. Tenho lido e comentado cada um dos contos em parceira com a minha amiga Marcia Cogitare, do Blog Surtos Literários. A publicação da Marcia pode ser vista clicando aqui.

Este conto é de uma beleza singular e trata de um assunto muito delicado ainda nos dias de hoje. Na verdade, principalmente nos dias de hoje. Ele fala do envelhecimento e da solidão que o acompanha muitas vezes.

Uma senhora idosa sai de sua cidade no Maranhão em direção ao Rio de Janeiro, acompanhando uma mulher que pretendia colocá-la em um asilo. No final das contas, a mulher vai embora para Minas Gerais e deixa a senhora idosa no Rio, sozinha, apenas com algum dinheiro.

Era uma velha sequinha que, doce e obstinada, não parecia compreender que estava só no mundo.

Seu marido e seus dois filhos (um casal) já tinham morrido. Ela não tinha mais ninguém. Chamava-se Margarida, mas todos a chamavam de Mocinha.

Achava sempre onde dormir, casa de um, casa de outro.

Ela não tinha mais um objetivo de vida, um desejo, nada. A memória não ajudava muito e ela não se lembrava com clareza o que acontecera com seu marido e seus filhos. Aproveitava os dias no Rio de Janeiro para passear, recebendo alguma esmola, algo para comer e aguardando seu próprio destino.

Dormia agora, não se sabia mais por que motivo, no quarto dos fundos de uma casa grande, numa rua larga cheia de árvores, em Botafogo.

Até que a família que a abrigara se deu conta de que ela não ia embora; sua presença começava a incomodar. E eles resolveram levar a idosa para Petrópolis, para a casa de um dos filhos, com quem estavam de relações cortadas. Levaram-na de carro e deixaram a alguma distância da casa para que não fossem vistos. Deram apenas o recado através da senhora, o que deveria ser falado ao chegar.

Mas não lhe deram um lugar para ficar. Ao contrário, o moço deu um dinheiro para Mocinha e disse que voltasse ao Rio, que não havia como acomodá-la na casa. Ela pegou o dinheiro e partiu, sozinha, na cidade desconhecida aonde tinha acabado de chegar.

Então, como estava cansada, a velha encostou a cabeça no tronco da árvore e morreu.

Existe fim mais triste, mais seco, mais solitário? Não havia uma pessoa para chorar sua morte, para velar seu corpo, para providenciar seu destino… ninguém!

A morte permeou minha vida por causa da minha profissão. Ela não é algo distante. Está próxima, à espreita. E muitas vezes eu me pergunto se o melhor é ficar para o fim da festa, ser o último a partir, aquele que deve apagar as luzes… E eu não acho que seja bom. Talvez o melhor seja partir no meio, ainda com o salão cheio, para não se sentir tão só em nenhum momento. Sei que não temos como escolher o momento. Acho que penso nisso por causa da Medicina e suas intermináveis pesquisas que prolongam cada vez mais a vida. Não sei se eu iria querer isso pra mim… Será que alma não se cansa? Será que chega o ponto de dizer: “já deu”?

Tive um conhecido bastante idoso, judeu polonês que viveu e sofreu na Segunda Guerra, que passou fome e frio. Seu filho vivia brigando com ele porque ele tinha comido demais e alterado a glicemia; que ele não seguia as recomendações da nutricionista… e daí por diante. Um dia ele me falou: “todos os meus amigos já morreram; já passei por muito sofrimento, não escuto, meus rins não funcionam, preciso fazer diálise e ainda querem me proibir de comer o que eu gosto?” Eu não consegui encontrar uma resposta para ele.

Sei que saí totalmente do contexto do conto. A questão é que eu vejo o envelhecimento. Envelhecer não é fácil. E o mundo não está preparado para acolher os idosos como eles merecem… para lhes dar conforto, carinho, escutar suas histórias. Todos estão acelerados demais, inseridos nessa vida virtual e sem sentido.

É uma pena.

 

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3 Comments
  • Esse conto meche muito com a gente, penso que é assim que tem que ser.
    Me lembrei muito da minha avó e de quanto ela me faz falta.

    Adorei sua resenha e de como pegou algo da sua vida e experiência como médica e compartilhou com seus leitores.

    Hug

    • Silvia Souza disse:

      Também senti muito o conto, Marcia.
      Já vi tanta gente ser abandonada pela família ou ser tratada com descaso.
      Sei que existem as famílias que acolhem e cuidam da pessoa super bem.
      Mas envelhecer não é fácil… e envelhecer sozinho no mundo deve ser algo insuportável.
      Acho que a gente lê o conto desejando que ela morra no final…

  • Carlos disse:

    Olá Silvia tem um bom coração. Para lidar com a morte também deve ser muito corajoso. Um beijo.

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