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“A legião estrangeira” #6: “Tentação”

“A legião estrangeira” #6: “Tentação”
“A legião estrangeira” #6: “Tentação”

A Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários me convidou para comentar com ela cada um dos contos da Clarice Lispector que estão reunidos no livro Todos os Contos, da Editora Rocco. Atualmente, estamos no livro A legião estrangeira; e este é o sexto conto, chamado Tentação. Fiquei pensando se deveria comentar o conto ou transcrevê-lo aqui; isso porque ele tem apenas duas páginas e ele já diz tudo por si mesmo.

Este conto bastante curto conta a história de uma menina ruiva, sentada nos degraus em frente à sua casa e com soluço.

Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.

Ela estava sozinha, apenas segurando uma bolsa velha.

Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas.

O que é interessante é que a ideia dos cabelos ruivos da menina permitiram captar a intensidade do calor que fazia naquele dia àquela hora; parece que ela quer mostrar que o sol estava ali na Terra, no meio da cidade, naquela rua deserta.

E a menina acabou encontrando a sua metade, a complementação de seus cabelos ruivos, que virou a esquina “na figura de um cão”.

Era um bassê lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um bassê ruivo.

E eles se olharam e se comunicaram de forma silenciosa, como se fossem de fato destinados um ao outro.

Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passara? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.

Será que existem pessoas ou animais que estejam de fato destinados a estar juntos? Será que nossa tentativa de justificar encontros casuais como algo do destino é real de alguma forma? Quantas vezes erramos nessas justificativas tolas? E quantas outras tantas vezes não devemos passar ao lado de um ser que nos seria absolutamente complementar sem sequer olhar para ele?

No conto, o cachorro tinha uma dona que o levou embora. E, por mais que eles tivessem se reconhecido como complementares, cada um seguiu seu caminho de forma independente.

 

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2 Comments
  • Carlos disse:

    Olá Silvia, existem ainda lugares que são atraentes para certas pessoas e que outros deixá-los indiferentes. Com plantas, animais e seres humanos também é verdadeiro. Um abraço,

  • Não sei nada sobre destinos , mas acredito que existe algo que nos conecte à pessoas num tempo oportuno de nossa vida.E acho que a sensibilidade para com os bichos também conta.
    Hug

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