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“A legião estrangeira” #3: “A mensagem”

“A legião estrangeira” #3: “A mensagem”
“A legião estrangeira” #3: “A mensagem”

Esta publicação faz parte do Projeto Clarice Lispector, idealizado pela Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. Ela me convidou para ler em conjunto com ela o livro “Todos os Contos” de Clarice Lispector, publicado pela Editora Rocco. Este é o terceiro conto originalmente publicado no livro “A legião estrangeira”. E é, com certeza, o conto que tive mais dificuldade de analisar até agora.

Eu fiquei com uma sensação muito abstrata ao ler este conto. Não consegui materializar nem perceber quais são os sentimentos reais dos dois jovens, personagens do conto. Os nomes deles não são mencionados.

A princípio, quando a moça disse que sentia angústia, o rapaz se surpreendeu tanto que corou e mudou rapidamente de assunto para disfarçar o aceleramento do coração.

Fica a impressão de dois amigos muito próximos, apesar de serem de sexos diferentes. E, talvez por esse mesmo motivo, viviam uma amizade fadada a um fim, impossível de se perpetuar.

Viu-se conversando com ela, escondendo com secura o maravilhamento de enfim poder falar sobre coisas que realmente importavam; e logo com uma moça!

Ele a tratava como a um igual, coisa que (imagino) fosse praticamente impensável nas décadas de 1950 e 1960.

Sobretudo a moça já começara a não sentir prazer em ser condecorada com o título de homem ao menor sinal que apresentava de… de ser uma pessoa. Ao mesmo tempo que isso a lisonjeava, ofendia um pouco: era como se ele se surpreendesse de ela ser capaz, exatamente por não julgá-la capaz. Embora, se ambos não tomassem cuidado, o fato dela ser mulher poderia de súbito vir à tona. Eles tomavam cuidado.

Fico imaginando se a própria Clarice vivenciava esse problemas por ser mulher: os problemas de não ser julgada capaz ou inteligente ou apta para tomar as próprias decisões na vida.

Mas uma amizade entre jovens de sexos diferentes trazia suas dificuldades.

Ele chegara a lhe dizer – já que ela era como um homem para ele -, chegara mesmo a lhe dizer, com uma frieza que inesperadamente se quebrara em horrível bater de coração, que um rapaz é obrigado a resolver “certos problemas”, se quiser ter a cabeça livre para pensar. Ele tinha dezesseis anos, e ela, dezessete. Que ele, com severidade, resolvia de vez em quando certos problemas, nem seu pai sabia.

O fato é que, tendo uma vez se encontrado na parte secreta deles mesmos, resultara na tentação e na esperança de um dia chegar ao máximo. Que máximo?

Que é, afinal, que eles queriam?

Desse ponto em diante do conto, parece que eles realmente estavam em um impasse; o impasse de não saberem ao certo o que queriam. A impressão que me passou é que eles precisavam desesperadamente um do outro, mas o rapaz sentia que não queria continuar assim e não queria que houvesse algo mais. Ele já se incomodava com a presença da moça, mas não queria prescindir dela. Seria tão mais fácil se conseguíssemos interpretar nossos sentimentos de forma isolada das coisas que nos cercam, das cobranças sociais, dos conceitos de certo e errado. Deveria valer apenas aquilo que diz o coração e a razão, mas apenas nós mesmos e não as normas que nos são impostas.

Apenas um instante de fraqueza e vacilação. Mas dentro desse sistema de duro juízo final, que não permite nem um segundo de incredulidade senão o ideal desaba, ele olhou estonteado a longa rua – e tudo agora estava estragado e seco como se ele tivesse a boca cheia de poeira. Agora e enfim sozinho, estava sem defesa à mercê da mentira pressurosa com que os outros tentavam ensiná-lo a ser um homem.

 

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3 Comments
  • […] Resumo da Semana “Duas narrativas fantásticas” de Fiódor Dostoiévski “A legião estrangeira” #3: “A mensagem” Oscar 2017: “Moana: […]

  • Marcia Cogitare disse:

    Também tive muita dificuldade de entender e escrever sobre este conto. Tudo é muito nebuloso e impreciso nele.
    E essa coisa de gênero sempre pega né. Ainda hoje parece impossível descolarmos a pessoa do gênero ao qual ela pertence. Quem sabe num futuro distante isso seja possível.

    Hug

    • Silvia Souza disse:

      Confesso que os contos de “A legião estrangeira” que estamos lendo atualmente, não estão me conquistando totalmente…

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