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“A legião estrangeira” #13: “A legião estrangeira”

“A legião estrangeira” #13: “A legião estrangeira”
“A legião estrangeira” #13: “A legião estrangeira”

Esta publicação é referente ao Projeto Clarice Lispector idealizado pela Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. A proposta foi de publicarmos no mesmo dia nossos comentários sobre cada um dos contos da escritora, que foram todos reunidos por Benjamin Moser no livro “Todos os Contos” da Editora Rocco. O conto de hoje é A legião estrangeira, do livro “Legião Estrangeira”.  A publicação da Marcia pode ser lida clicando aqui.

Existem alguns contos de Clarice Lispector em que tenho a impressão que ela está falando dela mesma. Será?

Neste conto, uma mulher, escritora, compra para seus filhos um pintinho; ela quase é obrigada a ficar com a ave, por causa do olhar suplicante de um dos filhos para que a mulher cuide do animalzinho, como faz com todos os filhos e o marido. Ao adotar o pintinho, ela se lembra de um evento antigo em sua vida, um outro episódio em que comprou um pintinho amarelinho em uma feira.

Mas nos meninos havia uma indignação silenciosa, e a acusação deles é que nada fazíamos pelo pinto ou pela humanidade. A nós, pai e mãe, o piar cada vez mais ininterrupto já nos levara a uma resignação constrangida: as coisas são assim mesmo. Só que nunca tínhamos contado isso aos meninos, tínhamos vergonha; e adiávamos indefinidamente o momento de chamá-los e falar claro que as coisas são assim.

Nessa primeira vez, talvez não tivesse os quatro filhos ainda, ao menos ela não os menciona. Menciona apenas um deles, e este era pequeno. Morava em um prédio e uma das famílias vizinhas era de indianos. A mulher demonstrava superioridade e falava muito pouco com a narradora; mas sua filha, Ofélia, ia sempre à casa da escritora, mesmo sem a autorização da mãe. E ficava controlando a mulher, dando palpites em sua vida, quase como ordens a serem seguidas. A mulher não sabia porque Ofélia fazia questão de ficar em sua casa, cuidando de tudo o que a outra fizesse. Não adiantava a mãe vir buscar a menina, ela sempre voltava e passava seu tempo na casa da vizinha.

Até que houve o dia em que ela ouviu o piar do pintinho e prestou atenção para saber do que se tratava. A mulher falou que comprara um pintinho e que ele estava na cozinha. Ofélia foi procurá-lo e passou a brincar com ele e a cuidar dele como se fosse a única capaz de fazê-lo. A dona da casa voltou à sua escrita, até que a menina, algum tempo depois, veio se despedir, de forma seca e abrupta.

A mulher se despediu, mas algo nela não ficou em paz; ela não conseguia se concentrar no texto que escrevia. Ela resolveu olhar na cozinha e encontrou o pintinho morto. O excesso de carinho da menina Ofélia matara o bichinho.

A história parece tão banal contada por mim, dessa forma simples e coloquial. Mas o conto de Clarice Lispector é de uma beleza absolutamente indescritível! Sua forma de narrar o contato da menina, o quanto Ofélia determinava a vida da mulher, apesar de ser ainda uma criança, essa relação de poder, submissão, medo, opressão… tudo misturado. E eu fui capaz de sentir exatamente o que aquela mulher sentia, ao ter sua vida invadida pela menina que vinha sem ser convidada. E o momento em que ela consegue se libertar de sua dominação quando conta que tem um pintinho. A menina simplesmente passou a ser uma criança, fascinada pelo bichinho que piava em sua mãozinha, desejando apenas brincar e assumir seu papel infantil.

Da cozinha voltou imediatamente – estava espantada, sem pudor, mostrando na mão o pinto, e numa perplexidade que me indagava toda com os olhos:

– É um pintinho! disse.

Ler os textos de Clarice Lispector é um aprendizado sobre o uso das palavras, sobre a forma de nos fazer sentir diretamente aquilo que ela quer descrever, menos pela objetividade do texto e mais pela forma como somos enredados e aprisionados pelas palavras usadas.

Maravilhoso!

 

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3 Comments
  • carlos disse:

    Olá Silvia, é por este autor. Um fato trivial. Talvez real. Escibe uma história e cheia de emoções. Um abraço.

  • Marcia Cogitare disse:

    “Ler os textos de Clarice Lispector é um aprendizado sobre o uso das palavras, sobre a forma de nos fazer sentir diretamente aquilo que ela quer descrever, menos pela objetividade do texto…”

    Acho que vc tem razão, a objetividade não importa quase sempre em seus textos. A forma é mais importante.
    Dar vazão ao abstrato e viajar nas ideias é um exercício levado ao extremo por Clarice.

    Hug

    • Silvia Souza disse:

      Sem dúvida.
      Eu fico impressionada com a maneira como ela trabalha com as palavras… invejo esse dom… 🙂
      Beijo!

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