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“A legião estrangeira” #12: “Os obedientes”

“A legião estrangeira” #12: “Os obedientes”
“A legião estrangeira” #12: “Os obedientes”

Esta publicação é referente ao Projeto Clarice Lispector idealizado pela Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. A proposta foi de publicarmos no mesmo dia nossos comentários sobre cada um dos contos da escritora, que foram todos reunidos por Benjamin Moser no livro “Todos os Contos” da Editora Rocco. O conto de hoje é Os obedientes, do livro “Legião Estrangeira”.  A publicação da Marcia pode ser lida clicando aqui.

Eu tenho tido dificuldade de comentar a maioria dos contos que compõem o livro “Legião Estrangeira”. Este conto não está entre estes. A narrativa de Os obedientes me tocou profundamente, talvez por causa de minhas próprias vivências pessoais.

A escritora conta a história de um casal que se envolveu sem uma grande paixão.

Esse homem e essa mulher começaram – sem nenhum objetivo de ir longe demais, e não se sabe levados por que necessidade que as pessoas têm – começaram a viver mais intensamente. À procura do destino que nos precede? e ao qual o instinto quer nos levar? instinto?!

E essa é a história de tantos homens e mulheres, não é verdade? Quantas pessoas não se aproximam, sem uma grande paixão, sem planos, e vão, pouco a pouco, sem planejar, construindo uma vida juntos, simplesmente por causa de algumas semelhanças e muitas carências e de um medo enorme da solidão.

E se habituam um ao outro, vivendo a vida acomodada que lhes parece destinada, sem grandes pretensões de futuro. Mas e então? Pode chegar o momento fatídico em que eles passam a achar que aquilo não basta; aquela vivência passa a ser insuficiente e os anos de vida estão se esgotando.

Talvez apenas devido à passagem insistente do tempo tudo começara, porém, a se tornar diário, diário, diário. Às vezes arfante. (Tanto o homem como a mulher já tinham iniciado a idade crítica).

Nesse momento, o casal pode se reinventar, se for criativo; conversar, trocar ideias, desabafar os desejos mais íntimos e secretos. Ou simplesmente podem ficar quietos em seus mundos particulares, vivendo juntos, mas ausentes da vida do outro. Ou podem ser cínicos, inventar mentiras, usar ironias e agressões para culpar o outro da mudança que a própria pessoa foi incapaz de realizar. Ou, por último, eles podem se separar, seguir caminhos opostos na estrada da vida e procurar buscar os sonhos não vividos.

E foi o que o casal fez no conto.

Nada mais a dizer. Faltava-lhes o peso de um erro grave, que tantas vezes é o que abre por acaso uma porta. Alguma vez eles tinham levado muito a sério alguma coisa. Eles eram obedientes.

Também não apenas por submissão: como num soneto, era obediência por amor à simetria. A simetria lhes era a arte possível.

Como foi que cada um deles chegou à conclusão de que, sozinho, sem o outro, viveria mais – seria caminho longo para se reconstruir, e de inútil trabalho, pois de vários cantos muitos já chegaram ao mesmo ponto.

Nosso desejo está sempre naquilo que não temos. Eles estavam juntos e infelizes, incapazes de prosseguir na mesma rotina diária, cansativa e solitária. Não havia mais assuntos a serem conversados. O sonho (o desejo) estava no caminho sem a companhia do outro. A mulher sonhava com o amor da sua vida, a paixão avassaladora que ela não vivera. O homem sonhava com amantes várias para realizar todas as fantasias nunca imaginadas.

Mas a idealização não significa concretização. Geralmente nos frustramos quando a idealização é muito irreal e quando não depende apenas dos nossos atos; quando ela depende de sentimentos onde outras pessoas estejam envolvidas. E enfrentar a realidade da separação, da ausência do outro que, mesmo silencioso estava ao nosso lado (aquela alegria de saber que há alguém ali, que não se está sozinho, mesmo que a alma percorra solitária o mundo interior) não é nada fácil.

A separação exige preparação; certeza; objetivos concretos; enfrentar o “estar só”. E esse enfrentamento assusta. Quem consegue olhar para dentro de si mesmo, para todos os espaços empoeirados e sombrios e não ter medo do que vai encontrar?

E eles não estavam preparados. E sofreram a separação talvez mais do que sofriam na companhia um do outro.

É um conto que vale a leitura.

 

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5 Comments
  • Marcia Reis disse:

    Eu tinha certeza que este conto vc iria gostar rs.
    E que bom que escolhemos abordagens diferentes para nosso texto.

    Hug

  • carlos disse:

    Olá Silvia é uma revisão maginifica. Ir para a solidão requer muita maís segurança. Um beijo.

    • Silvia Souza disse:

      Sabe que foi um aprendizado enorme para mim.
      E hoje em dia considero que foi essencial, porque quando penso em ter uma companhia, sei que não é apenas por carência ou pelo meu receio de ficar sozinha…
      Mas não são todas as pessoas que conseguem viver solitárias, sem uma companhia ao seu lado.
      Beijo!

  • mariel disse:

    É um conto gosto de ler

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