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“A legião estrangeira” #10: “A quinta história”

“A legião estrangeira” #10: “A quinta história”
“A legião estrangeira” #10: “A quinta história”

Em parceria com a Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários, tenho comentado cada um dos contos escritos por Clarice Lispector, todos eles reunidos no livro Todos os Contos, publicado pela Editora Rocco e organizado por Benjamin Moser, um estudioso da vida e obra da escritora. Hoje vou comentar o conto A quinta história, que faz parte do livro A legião estrangeira. A publicação da Marcia pode ser lida clicando-se aqui.

Tenho que confessar que os contos deste livro (A legião estrangeira) não têm me agradado particularmente. Tenho tido dificuldade em comentá-los, porque não me sinto envolvida emocionalmente. São contos diferentes, saindo um pouco do que costumo comentar aqui sobre sentimentos, relacionamentos, e outras questões de caráter mais intimista.

Este conto bastante curto (apenas três páginas) tem um aspecto bastante curioso. Apenas um acontecimento é contado de três formas diferentes, dando origem a três histórias: “As Estátuas”, “O Assassinato” e “Como Matar Baratas”. O último título é a primeira a ser narrada:

(…) queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. Que misturasse em partes iguais açúcar, farinha e gesso. A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de-dentro delas. Assim fiz. Morreram.

Mudando o ponto de vista, a perspectiva da narrativa, ela continua essa breve historinha e a transforma no fato concreto que é o assassinado dos insetos, a preparação para realizá-lo, sem remorsos ou arrependimento.

Novamente, uma mudança do enfoque, e a existência das baratas mortas, estáticas, preenchidas por gesso, como estátuas a serem expostas em algum lugar, espalhadas pelo chão da área de serviço, onde a mistura foi colocada.

E ela prossegue com novas reflexões, construindo uma quarta história e esboçando a construção de uma quinta história.

Achei curioso justamente esse processo da escrita, das ideias, da inspiração. Fiquei imaginando se era assim que ela criava um texto. Muitas vezes pegando algo banal e tentando fazer experimentações de olhares diferentes, com maior luz ou sombras, os eventos anteriores ou posteriores, as consequências dos fatos iniciais. Praticamente tudo pode virar um texto, um conto, um livro. Basta perceber o ângulo certo, intrigante, que permita reflexões. E, claro, ter o talento literário de Clarice Lispector.

 

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5 Comments
  • carlos disse:

    Olá Silvia, eu acho que a imagem mental obtido, para fazer uma história só precisava colocar reflexões do autor sobre os lábios dos personagens e introdução de ligeiras variações. Eu não li o livro ainda. Intimista eu encontrei o trabalho de Ana Teresa Pereira, se você quiser dar uma olhada. Um abraço.

    • Silvia Souza disse:

      Olá, Carlos!
      Não conhecia essa escritora.
      Você me recomenda algum livro para iniciar?
      Obrigada!
      Beijo!

      • carlos disse:

        Olá Silvia, eu assumi que já tinha falado a voçe sobre ela. Eu li em Português A Noite mais Escura da Alma Mais e Se Nos Encontramos de Novo. Um beijo.

  • Marcia Reis disse:

    Este conto é muito louco. Parece mais um exercício de escrita.
    Mas curti a brincadeira.

    Silvia tenha calma a legião estrangeira tá acabando rs.

    Hug

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