Now reading

A irmã

Novas carreiras
Next post
A irmã
A irmã

De repente, a irmã estava lá. Não sabia o que tinha se passado; não entendia o aumento da barriga da mãe, nem seu maior cansaço. Sabia apenas que, em suas lembranças de vida, a irmã sempre esteve presente.

A irmã tinha grandes olhos verdes, cabelos pretos lisos em quantidade e um sorriso sempre pronto no rosto. Conquistava todas as pessoas com seu bom humor e suas gargalhadas.

A menina mais velha sempre fora séria, de olhar desconfiado e jeito de poucos amigos. Tinha os privilégios da filha mais velha e de ser a primeira neta. Mas as poucas vantagens que vinham com essa posição não compensavam a solidão intensa que sentia.

A chegada da irmã tinha tirado todas as atenções da mais velha. Ela não era mais a única. E não era simpática.

Por outro lado, a irmã estava sempre lá; preparada para dar um abraço, um beijo, para fazer um carinho. Ou simplesmente estar.

Elas passaram a ser inseparáveis. A mais velha amarrava o sapato da irmã, ajudava com as tarefas. E, em troca, ela tinha afeto e amizade.

A irmã se tornara sua protetora; mesmo sendo mais nova e menor, a menininha defendia a mais velha nas mais variadas situações; era sua voz, sua força, sua valentia.

Uma complementava a outra de forma quase perfeita. Pareciam duas peças do mesmo jogo, em que uma tinha o que faltava à outra. Elas brigavam sim, como todos os irmãos brigam. Tinham desejos diferentes em alguns momentos. A mais velha tinha seus egoísmos, seus autoritarismos, aqueles acessos de dominação que são tão comuns nos primogênitos.

A mais velha queria sempre escolher a brincadeira, o programa de TV, o lugar à mesa. À irmã, cabia aceitar ou se rebelar. Quando isso acontecia, iam as duas de castigo para o quarto, cada uma em sua cama, as duas chorando ou de cara emburrada. E tinham que permanecer no castigo pelo tempo estipulado pela mãe. Geralmente, quando a mãe voltava, as duas estavam rindo e brincando, como se nada tivesse acontecido.

Havia muitos momentos em que a mais velha tinha ciúmes da caçula. A pequena tinha seu encanto. A mais velha queria que gostassem dela como da mais nova, daquela forma gratuita, apenas por suas gracinhas. À mais velha, as gracinhas não caíam bem; ficavam forçadas. Ela era admirada pela inteligência, pela precocidade, mas sempre por um desempenho, uma realização, e nunca de forma gratuita. A única que gostava dela de forma gratuita e desinteressada era a irmã. A menininha olhava para a mais velha com admiração e amor, mesmo que não recebesse nada além de uma careta.

O amor entre as duas não era pela consanguinidade. Ele tinha sido construído. Convivência. Admiração. Carinho. Interdependência. Amizade. Troca. Necessidade. Companhia. Proteção. Entrega. Companheirismo. Compreensão. Simbiose. Uma estava para a outra. Não precisavam falar a linguagem dos adultos. Elas tinham sua própria comunicação. Os olhares. Os sorrisos.

E muito, muito bem-querer.

– Sílvia Souza

Written by

14 Comments

Instagram
  • #lamatseringeverest #citações #budismo #reflexõesdesilviasouza
  • #honorédebalzac #citações #trechosliterarios #amulherdetrintaanos #reflexõesdesilviasouza
  • #edmundburke #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #rubemalves #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #pearlbuck #citações #reflexõesdesilviasouza