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Livro “A Graça da Coisa” de Martha Medeiros

Livro “A Graça da Coisa” de Martha Medeiros
Livro “A Graça da Coisa” de Martha Medeiros

Primeira Publicação: Julho de 2013

Editora: L&PM

ISBN13: 9788525429308

Resenha: Passar pela vida à toa é um desperdício imperdoável. Que o mundo está uma doidice sem tamanho não é preciso dizer. Que estamos cada vez trabalhando mais, ficando mais tempo no celular e no trânsito, nem se fala. Então como sobreviver, ou melhor, como viver em meio a este caos que se transformou a nossa vida? Para Martha Medeiros, a grande questão é se desapegar daquilo que é desnecessário, que nos faz mal, que nos atrasa, e enxergar a graça da coisa – sendo a ‘coisa’, no caso, a própria vida. É deixar ideias pré-concebidas de lado, saber rir de si mesmo, se reinventar; estar aberto para encontrar o amor onde menos se espera, é transformar a ansiedade em sabedoria, é saber ouvir, é um conjunto de pequenas atitudes que, se colocadas em prática, vão nos ajudar a levar uma vida mais desestressada e, de quebra, nos surpreender. Reverenciando a tradição da crônica brasileira, Martha Medeiros fala cara a cara com o leitor, mostrando que não estamos sozinhos nas nossas neuroses diárias. Esta coletânea de oitenta textos que abordam os temas mais caros à autora – o amor, o cinema, os relacionamentos, as relações familiares, entre muitos outros – traz, sem dúvida, alguns dos assuntos sobre os quais mais nos indagamos hoje em dia – um prato cheio para o autoconhecimento.

 

Estou aproveitando esta publicação que escrevi em 26 de Maio de 2014, quando li este livro de Martha Medeiros, para falar um pouco mais da escritora. Seus livros tiveram um papel importante em um momento crucial da minha vida, porque fizeram com que eu repensasse muitas coisas que não iam bem e tomasse coragem de dar o primeiro passo para uma mudança de direção.

Acredito que naquela época (por volta de 2010), se eu tivesse procurado ler um livro de Filosofia ou qualquer obra mais densa, provavelmente não teria sentido o mesmo tipo de identificação. Isso porque eu estava tão confusa com tudo que eu não conseguia me concentrar em leituras complexas nem manter o foco no que quer que fosse.

Meu primeiro contato com a escritora foi através de uma entrevista que li em uma revista feminina. O nome ficou na minha memória, mas não busquei nenhuma das suas publicações. Pouco tempo depois, assisti ao filme Divã e me identifiquei muito com a personagem Mercedes, vivida por Lilia Cabral. Soube que era baseado em um livro, que eu, rapidinho, comprei para ler; e Martha Medeiros surgiu e ocupou seu papel naquela fase.

Adorei o livro; ainda mais do que o filme. E busquei todos os livros que encontrei para comprar… TODOS!

Martha Medeiros nasceu em Porto Alegre em 20 de agosto de 1961 e é formada em Comunicação Social. Como poeta, publicou os seguintes livros: Strip Tease (Brasiliense, 1985), Meia-Noite e Um Quarto (L&PM, 1987), Persona Non Grata (L&PM, 1991), De Cara Lavada (L&PM, 1995), Poesia Reunida (L&PM, 1999) e Cartas Extraviadas e Outros Poemas (L&PM, 2001). Em maio de 1995 lançou seu primeiro livro de crônicas, Geração Bivolt (Artes & Ofícios), onde reuniu artigos publicados em Zero Hora e textos inéditos. Em 1996 lançou o guia Santiago do Chile, Crônicas e Dicas de Viagem, fruto dos oito meses em que viveu na capital chilena. Seu segundo livro de crônicas, Topless (L&PM, 1997), ganhou o Prêmio Açorianos de Literatura. É autora dos best-sellers Trem-Bala, Doidas e santas, Feliz por nada Divã (que já vendeu mais de 50.000 exemplares).

Mas eu mudei muito ao longo desses anos. E acho que os textos da Martha Medeiros colaboraram para essa mudança. Percebo que sou outra mulher, muito mais madura, mais focada, mais decidida, e dei um rumo completamente diferente à minha vida.

Naquela época, os escritos de Martha Medeiros eram exatamente o que eu precisava ler. Eu me identificava completamente. Mas hoje em dia, os novos livros publicados já não me comovem mais. Talvez eu tenha me tornado uma pessoa mais complexa; alguém cujas emoções mais profundas já não podem mais ser descritas no atacado, como se fossem as mesmas de todas as outras mulheres do mundo.

Deixei de comprar os novos lançamentos. Este foi o último. Mas ela foi essencial. Seus textos foram essenciais. E recomendo a todos que possam estar confusos, em especial as mulheres, naquela fase da vida em que parece que nada consegue nos satisfazer completamente.

Uma de suas crônicas:

Casamento, Lado A e Lado B

Casamento é um assunto que sempre seduz, por dois motivos muito simples: porque casamento é ótimo e porque casamento é péssimo, e são justamente esses dois lados da moeda que atraem tanto as pessoas.

Casamento é ótimo porque nos sentimos amados, seguros, porque ganhamos status social, porque temos sexo á hora que bem entendermos (em tese), porque temos filhos, porque temos companhia para viajar, porque não precisamos fingir ser o que não somos, porque na hora de ir ao cinema um estaciona o carro enquanto o outro vai para a fila da bilheteria e, principalmente, porque ninguém consegue devorar uma pizza sozinho. Casamento é matemática: podemos dividir, somar, multiplicar e subtrair. É aí, na subtração, que o casamento pode ser uma chatice.

Casamento é chato porque você vai passar o resto da vida transando com a mesma pessoa (em tese), porque o fantasma da rotina paira sobre nossas cabeças, porque passamos a ter mais responsabilidades e isso impede de jogarmos tudo para o alto e ir estudar teatro em Nova York, porque a solidão, afinal de contas, até que não é má companhia e as pizzarias, quem diria, já entregam pizza brotinho.

Ainda assim, com seu lado bom e seu lado ruim, acho que a geração que está casando agora tem mais chances de ser feliz do que tiveram os casais que estão comemorando bodas de outro. Os casamentos atuais estão deixando, aos poucos, de ser um contrato formal e estão se transformando em ritos de passagem mais espontâneos e emocionais. Hoje se casa mais por amor do que antigamente, e o número crescente de divórcios não me desmente, ao contrário, reforça a minha crença, por mais contraditório que isso possa parecer. Antes as pessoas casavam porque era uma tradição inquestionável, e não raro os próprios pais escolhiam os noivos para seus filhos: o coração não era convocado a depor. Assim sendo, todo casamento dava certo dentro de um molde errado, e ninguém se separava. Arranjava-se um amante e seguia-se em frente. Hoje as separações aumentaram porque ninguém mais suporta a ideia de não ser feliz. Porque ninguém quer saber de viver de mentirinha. Porque tempo passou a ser artigo de luxo e não pode ser desperdiçado. Se o casamento foi bom durante cinco, dez anos, e agora não é mais, boa-noite, amor. A vida está chamando lá fora. O casamento não está em desuso. O que está em desuso é a hipocrisia.

O fato de a mulher entrar no mercado de trabalho e ganhar seu próprio dinheiro também ajudou os novos casais: tirou do marido o papel de pai e patrão e o transformou no que ele é de fato, um homem para se compartilhar a vida, não alguém a quem devemos nossa sobrevivência e, por causa disso, obediência. A atriz Lizandra Souto, que uma época levantou a bandeira da virgindade, casou e virou capa de revista por conta do seu mais novo personagem: a Amélia dos anos 90. Abandonou a carreira de atriz para brincar de casinha. É um direito que lhe assiste, mas não acho legal quando divulgam essa decisão como uma volta aos velhos bons tempos. Ninguém disse que seria fácil trabalhar fora, cuidar da casa e dos filhos, mas é o preço a pagar pela nossa independência. Casamento não é emprego.

O que é casamento, então? Uma experiência que pode ser doce e cruel, eterna e passageira, bem-humorada e maquiavélica, tudo ao mesmo tempo. Como o mar, está sujeito a calmarias e tempestades. Como um disco, tem faixas ótimas e outras nem tanto. Como tudo na vida, é preciso experimentar, nem que seja para não gostar.

 

 

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