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A Festa

A Festa
A Festa

Era uma festa no jardim, com músicos tocando os ritmos daquele final de século. Havia muitas pessoas animadas, sentadas ou dançando, bebendo vinho e dando risadas. O ambiente estava alegre. Não era uma festa da alta sociedade, mas todos fizeram questão de vestirem as melhores roupas e os chapéus mais vistosos.

Em meio a todas aquelas pessoas, uma jovem se destacava. Ela usava um vestido branco com detalhes em vermelho e um lindo chapéu vermelho, cobrindo parcialmente seus cabelos castanhos acobreados e destacando sua pele muito branca e perfeita. Estava acompanhada por um homem elegante, trajando um terno escuro. Tinha uma barba ruiva, bem cortada, o que não era comum naquela época. Certamente, pertencia a outra classe social. Mas fazia questão de escoltar a moça, quase como se ela lhe pertencesse.

Ele convidou-a para dançar e demonstrava prazer em exibi-la naquele círculo de pessoas. Apertava-a em seus braços, puxando-a pela cintura e pela mão que comprimia com força em sua própria mão, obrigando-a a se manter muito próxima a ele.

Ele procurava aproximar seu rosto do dela, como se quisesse beijá-la ou falar algo em seus ouvidos. Tudo o que ele fazia confirmava que ele tinha poder sobre ela. Não chegava a ser violento, mas certamente não era doce.

Nitidamente, a jovem agia de uma forma, mas seus olhos tristes contavam outra verdade. Ela se deixava enlaçar; permitia que ele puxasse seu corpo até colá-lo ao dele. Ela apoiava seus braços na nuca do amante, de forma a que ele não se sentisse rejeitado. Aceitava a posse, a dominação e a exibição.

Mas, por mais que ele fosse seu proprietário, o dono do seu corpo e da sua beleza, ele não podia aprisionar sua mente, seus pensamentos. Naquele pequeno espaço da imaginação e dos sonhos, ela era livre. Podia pensar à vontade e imaginar escolher seu próprio caminho.

O problema é que a mente livre naquele corpo prisioneiro fazia com que seus olhos fossem melancólicos e desprovidos de brilho. Seus lábios conseguiam apenas esboçar um sorriso, mas nunca uma risada alegre e verdadeira.

Evitava o olhar do acompanhante com receio de ser desmascarada e, depois, castigada. Fingia sua felicidade.

Apenas um olhar atento captava seu pesar.

– Sílvia Souza

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