W.B. Yeats
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Abandono

Uma carta
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Abandono
Abandono

Quando ela se deu conta, os pais tinham partido. Os dias passavam sem que eles voltassem. Eram dias intermináveis de espera. Por que eles se foram sem elas? Uma angústia de incompreensão e de abandono foi crescendo dentro dela, até não caber mais no corpinho de menina de cinco anos. E ela precisou crescer para acomodar toda aquela angústia.

Ela se sentia responsável pela irmã, que era ainda menor do que ela e precisava de proteção. Ela guardava um silêncio incontido. Mesmo que falasse algo, seus olhos e sua alma estavam mudos. Alguma coisa delicada tinha se partido dentro dela. E ela tinha medo de deixar sua alma gritar e todos os pedaços frágeis se soltariam e nunca mais essa rachadura iria se curar. Tinha medo de que durasse para sempre a ferida e sua dor.

Cuidava da irmã. Mas era a irmã que a protegia das agressões do mundo. A irmã era o refúgio, o escudo e o equilíbrio.

De vez em quando chegavam cartas dos pais. Mas ela não entendia bem. Não entendia a distância. Não entendia os dias que passavam e nunca chegava a hora deles voltarem. Em alguns momentos, ela duvidava. E se eles nunca voltassem?

Não é que ela não gostasse de ficar com os avós. Gostava. E muito. Mas era diferente quando eles não eram apenas avós. Eles tiveram que assumir o papel dos avós que brigam, chamam a atenção, educam. Parecia que a bronca da avó doía mais do que qualquer bronca que sua mãe pudesse ter lhe dado. Nesses momentos, ela se sentava na escada que ficava entre a copa e a cozinha; e ficava lá; encostada no batente da porta, refugiada em sua melancolia. Queria pedir colo, abrigo, proteção. Mas não havia a quem pedir. E cruzava os braços; achava que fazer isso ajudaria a proteger suas emoções de mais tristeza.

O avô tentava demonstrar seu carinho comprando muitos chocolates, doces, balas. Satisfazia seu vazio emocional com todos aqueles sabores doces, que ao menos fazia com que se sentisse bem. E aprendeu que as tristezas podiam ser amenizadas com comidas deliciosas. Na falta de abraços e carícias, aquecia-se por dentro, enchendo seu estômago de alimentos açucarados. Ninguém nunca tinha lhe dito que aquilo podia não ser bom; ela achava que se ela se sentia bem, nada de mal precisaria esperar.

Não tinha noção do tempo. Não tinha noção das horas, semanas, meses. Havia um contínuo de dias e noites que se intercalavam. Mas nada mudava de verdade. Eram noites de pesadelo. Dias de solidão. O abandono. A falta. A carência. O silêncio. As lágrimas caladas na garganta. O medo. O desejo de apenas fazer algo… alguma coisa certa… para que pudesse voltar a ser amada.

– Sílvia Souza

 

 

 

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