9.11.2016
"Fiancee With Bouquet" de Marc Chagall (1977)

“Fiancee With Bouquet” de Marc Chagall (1977)

 

Dando continuidade ao Projeto Clarice Lispector, proposto pela Márcia Cogitare do Blog Surtos Literários, hoje vou comentar o nono conto das Primeiras Histórias: Gertrudes pede um conselho, escrito em setembro de 1941. Vejam também a publicação da Márcia clicando aqui.

O conto relata um pouco da história de Gertrudes (Tuda), uma moça de 17 anos, que procura uma “doutora” que escreve uma coluna em uma revista dando orientações para as moças. Este conto é narrado em terceira pessoa, e o narrador começa descrevendo a moça na sala de espera do consultório da profissional. Ela escreveu diversas cartas e acabou tendo uma resposta de que deveria comparecer ao consultório para conversar. Em uma das cartas dizia:

Mas não consigo dormir porque fico pensando nas coisas. Já resolvi me suicidar, mas não quero mais. A senhora não pode me ajudar? Gertrudes.”

Ela pensa demais e se questiona demais; busca na profissional uma salvação, alguém que pudesse ajudá-la a organizar seus pensamentos; busca respostas e explicações.

A eternidade não começa, não termina. Sentia uma pequena vertigem, quando procurava imaginá-la, e Deus, sempre em toda parte, invisível, sem forma definida. (…) Tornara-se bem livre… Mas isso não significava estar contente. (…)

(…) Ora sentia uma inquietação sem nome, ora uma calma exagerada e repentina.

Enquanto esperava ser atendida, imaginava a profissional, criava os diálogos, tentava colocar em palavras o que sentia e o que buscava, coisas que não estavam claras para a própria Tuda.

Não tardaria a entrar no escritório. Vai ser assim: ela é alta, tem os cabelos curtos, olhos fortes, um busto grande. Um pouquinho gorda. Mas ao mesmo tempo parecida com Diana, a Caçadora, da sala de visitas.

Ela sorri. Eu fico séria.

Quando foi convidada a, finalmente, entrar na sala da doutora, ficou muito ansiosa.

Tuda atravessou a sala, sem respirar. E encontrou-se diante da doutora.

Estava sentada junto à mesa, rodeada de livros e papéis. Uma estranha, séria, com uma vida própria, que Tuda não conhecia.

Fingiu arrumar a mesa.

— Então? – disse depois. – Uma menina chamada Gertrudes… – Riu. – Por que é que se lembrou de vir a mim, procurar trabalho? – iniciou, com o tato que lhe valera o lugar de conselheira na revista.

Miúda, cabelos pretos enrolados em dois cachos sobre a nuca. O batom pintado um pouco para fora dos lábios, numa tentativa de sensualidade. O rosto calmo, as mãos irrequietas. Tuda sentiu vontade de fugir.

E, de repente, ela teve o desconforto da decepção… de quando criamos uma imagem de alguém, de alguma coisa, de uma situação, baseado apenas em algumas informações. Nosso cérebro constrói aquilo que queremos e passamos a acreditar nessa construção como se ela fosse a realidade. Não há espaço para outra coisa. Qualquer coisa que não corresponda à imagem construída vai gerar decepção. E foi isso o que Tuda sentiu no momento em que viu aquela mulher, totalmente diferente da imagem que tinha construído em sua mente jovem.

A profissional falava, já exausta do dia de trabalho; falava frases clichês e contraditórias.

— Essa inquietação, tudo que você sente é mais ou menos normal, vai passar. Você é inteligente e vai compreender o que vou lhe explicar. A puberdade traz distúrbios e…

Não, doutora, que humilhação. Ela já era grande demais para essas coisas, o que sentia era mais belo e mesmo…

(…)

Ela era igual a Amélia, a Lídia, a todo mundo, a todo mundo!

(…)

A conselheira impacientou-se ligeiramente. Estava cansada. Trabalhara tanto…

— Então? Mais alguma coisa? Fale, fale sem medo…

Tuda pensava confusamente: vim perguntar o que faço de mim. Mas não sabia resumir seu estado nessa pergunta. Além disso, receava cometer uma excentricidade e ainda não se habituara consigo mesma.

Não houve empatia e a conselheira não conseguia dizer algo que respondesse os questionamentos da moça. Até porque é muito difícil que outra pessoa possa nos dar respostas.

O diálogo não avançou muito e a profissional sugeriu que Tuda voltasse em 3 anos e, neste tempo, apenas seguisse sua vida, sem maiores reflexões.

A moça foi embora; mas mesmo a ausência de uma conversa proveitosa provocou mudanças nela.

(…) Transformava-se tudo! Como? Não sabia…

Continuou a andar, os olhos muito abertos, cada vez mais lúcida. Pensava: antes era daquelas que existem, que se movem, casam, têm filhos simplesmente. E d’agora em diante um dos elementos constantes de sua vida seria Tuda, consciente, vigilante, sempre presente…

Seu destino modificara-se, parecia-lhe. Mas como? (…)

Ela se deu conta de que não precisava de ninguém para ajudar a descobrir quem era de fato.

 

 

  Dando continuidade ao Projeto Clarice Lispector, proposto pela Márcia Cogitare do Blog Surtos Literários, hoje vou comentar o nono conto das Primeiras Histórias: Gertrudes pede um conselho, escrito em setembro de 1941. Vejam também a publicação da Márcia clicando aqui. O conto relata um pouco da história de Gertrudes (Tuda), uma moça de 17 […]


  • Marcia Cogitare

    Estamos quase concluindo este primeiro bloco de leitura e tem sido interessante descobrir uma Clarice que eu particularmente não conhecia. Uma Clarice bem humorada e irônica.

    Fiquei numa dúvida cruel. Será que não precisamos do outro para ter algum crescimento e reconhecimento de nós mesmos?. Passo a bola pra vc.

    Hug

    • Olá, Marcia!
      Eu acho que SEMPRE precisamos do outro (ou dos outros) para crescermos e conseguirmos descobrir quem somos de fato. Tem um escritor português que escreveu uma crônica sobre este assunto e eu concordo com ele… aqui tem um trechinho:
      “A minha maior qualidade é depender dos outros, é preocupar-me com o que pensam, é ser influenciado pelo que dizem. Eu não sou quase ninguém. Eu sou só um. Os outros são quase tudo. São quase todos. A minha maior qualidade é não querer, saber que não posso, safar-me sozinho. É sentir-me sozinho quando estou sozinho, preso pelo amor que me prende. É sentir-me incompleto. Os outros dão-me vida. A minha maior preocupação é conhecê-los, servi-los, conservá-los, merecê-los.” (Miguel Esteves Cardoso in “A Essência”).
      Beijo!


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