5.09.2016

 

A tradução do nome de um filme é algo difícil. A impressão que eu tenho é que quando se traduz o nome de um livro consegue-me manter uma tradução mais literal. Mas isso não é feito no caso de filmes. O título original deste filme, uma produção francesa, é “Asphalte”. Aqui no Brasil, saiu como “Fique comigo”. Se eu tivesse que dar o título, acho que também não o chamaria de “Asfalto”; usaria o título “Solidão”. Porque é isto que este filme mostra: pessoas solitárias, com diferentes histórias de vida, e que se encontram devido aos acasos da vida. Mas não são histórias de amor ou romances. São pessoas completamente diferentes, cujas solidões se encontram e se complementam por algum tempo.

A maioria dos personagens mora em um mesmo prédio. Cada um mora sozinho: o homem que mora no primeiro andar e não quis contribuir na reforma do elevador porque não precisava dele; a mulher argelina cujo filho está preso; o adolescente que sai com sua bicicleta todos os dias e vive isolado na sua música; a atriz que já teve sucesso, mas que envelheceu e não consegue mais papéis e passou a tentar esquecer sua tristeza na bebida (interpretada pela excelente Isabelle Huppert).

Já escrevi inúmeras vezes aqui que gosto dos filmes franceses… gosto da sonoridade do idioma e gosto do ritmo, porque acho que eles mostram a melancolia presente na vida real. Sei que muitas pessoas querem fugir da realidade de suas vidas quando assistem a um filme. Eu uso os filmes como uma fonte de reflexão. É claro que existem os momentos em que apenas quero me distrair e vejo outros tipos de filmes.

Na minha opinião, este filme, “Asphalte”, é uma representação da vida da maioria das pessoas; mesmo daquelas que convivem com muitas pessoas. Eu percebo que lá, no fundo, estamos todos muito sós; as palavras não expressam bem nossos sentimentos mais profundos nem dão conta de descrever nossos vazios existenciais. Claro que posso estar errada. Ou talvez a maioria das pessoas prefira não pensar nisto simplesmente.

No filme, acasos colocam as pessoas mais improváveis em contato: o homem do primeiro andar com uma enfermeira que trabalha sempre no plantão noturno; o adolescente aproxima-se da atriz e percebem que ambos podem se ajudar; um astronauta americano acaba aterrissando no prédio e é acolhido pela senhora argelina até que possa ser resgatado pela NASA. São solidões que se encaixam e que fazem com que cada um deles faça um pouquinho pelo outro, saia da inércia e da vida centrada apenas em si mesmo.

Na maior parte das vezes, é tão pouco o que precisamos fazer pelo outro. E é apenas fazendo algo pelo outro que nos sentimos bem. A sensação de bem estar, de amar, vem da entrega, de colocar um sorriso na face de alguém, de ajudar, de acolher. E é isso o que o filme mostra… que cada um daqueles indivíduos solitários se realiza ao fazer algo por outra pessoa. E assim as vidas se completam e ganham sentido.

 

 

  A tradução do nome de um filme é algo difícil. A impressão que eu tenho é que quando se traduz o nome de um livro consegue-me manter uma tradução mais literal. Mas isso não é feito no caso de filmes. O título original deste filme, uma produção francesa, é “Asphalte”. Aqui no Brasil, saiu […]


  • Lari Reis

    Que reflexão maravilhosa! Eu me identifico com o que foi dito, pelo que o filme te trouxe. Acho que no fundo – ou nem tão fundo – estamos mesmo muito sós. Nosso mundo parece aumentar de tamanho a cada dia. Há uma multiplicação constante de temas e fatos que não alimentam o ser humano, do contrário, que parece só se intensificar, deixando a gente cada vez mais perdido. Tão perdido que se torna difícil perceber que o que podemos fazer pelo outro – e por nós mesmos – é mais simples do que aparenta…

    Sobre o filme, em si, me interessei. Tenho um problema com filmes que não têm o inglês ou o português como idioma original porque, com essas línguas, eu não preciso ser refém das legendas. Quando é algo em francês, por exemplo, eu me perco um bocado! Mas acho válida uma tentativa de assistir Asphalte!

    • Obrigada por deixar um comentário tão rico, Lari!
      O que eu acho mais difícil ao indicar os filmes europeus é com o ritmo… sei que a maioria das pessoas está acostumada àquele ritmo frenético do cinema americano e quando vê um filme europeu acha muito parado.
      Espero que você goste!
      Beijo grande!


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