21.08.2016

Em busca de sentido

 

Título original: Trotzdem Ja zum Leben sagen: Ein Psychologe erlebt das Konzentrationslager

Primeira publicação: 1946

Editora: Vozes (2015) – 37a. Edição – 184 páginas

Tradutores: Walter O. Schlupp Carlos C. Aveline

ISBN 13: 9788532606266

Sinopse: Publicado em muitas línguas, sucessivas edições e milhões de exemplares, este despretensioso texto em linguagem narrativa constitui a porta de entrada para a logoterapia, a “terceira escola vienense de psicoterapia”. Qual o segredo de seu sucesso? Nele, o psicólogo/autor descreve como sentiu e observou a si mesmo e as demais pessoas e seu comportamento na situação-limite do campo de extermínio nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Ao fazê-lo, toca na essência do que é ser humano: usar a capacidade de transcender uma situação extremamente desumanizadora, manter a liberdade interior e, desta maneira, não renunciar ao sentido da vida, apesar dos pesares. Assim, esta obra-prima de observação psicológica é, ao mesmo tempo, um testemunho de grande humanidade, capaz de animar ainda hoje pessoas que, em situações aparentemente sem sentido, ficam abertas para os pequenos sinais de sentido perceptíveis no dia a dia. Tais sinais tornam-se frestas pelas quais podemos vislumbrar o sentido mais profundo e transcendente da vida. Contendo dois apêndices em que o autor expõe os “Conceitos Fundamentais da Logoterapia” e a “Tese do Otimismo Trágico”, trata-se de um livro que, além de informativo, é comovente no melhor sentido da palavra.

 

Viktor E. Frankl nasceu em Viena, Áustria, em 26/03/1905. Morreu em 1997. Ele foi um Neurologista e Psiquiatra austríaco, assim como um sobrevivente do Holocausto. Esteve nos campos de concentração de Auschwitz e de Dachau durante a Segunda Guerra Mundial.

Suas obras são voltadas, principalmente, para aspectos psicológicos dentro da Logoterapia, que foi seu objeto de estudo.

Este livro foi-me indicado por um Psicólogo com quem eu fiz psicoterapia por algum tempo. Ele estava comprovado há muito tempo. Finalmente, priorizei sua leitura. O livro pode ser dividido em duas partes bastante diferentes. Eu gostei das duas; mas acho que, dependendo do objetivo da leitura, alguns leitores podem apreciar mais uma das partes. Na primeira parte, ele conta sua vivência nos campos de concentração por onde passou. Na segunda parte, ele fala especificamente de seu trabalho como psicoterapeuta e da Logoterapia.

No início biográfico, ele descreve de sua chegada ao campo até o momento em que os aliados vencem e a bandeira branca é hasteada no campo de concentração. Seu foco é a descrição dos aspectos psicológicos dos prisioneiros; as etapas diferentes que eles vão vivenciando de acordo com o passar do tempo. Ele descreve as condições em que vivem, o que comem, o cansaço extremo, o trabalho extenuante, o frio, os maus tratos, as doenças. E como os prisioneiros reagem a cada uma dessas situações e onde tentavam buscar motivação para continuar lutando.

Mas não se encontra sentido apenas na realização de valores de criação e de experiência. Se é que a vida tem sentido, também o sofrimento necessariamente o terá. Afinal de contas, o sofrimento faz parte da vida, de alguma forma, do mesmo modo que o destino e a morte. Aflição e morte fazem parte da existência como um todo.

Precisamos aprender e também ensinar às pessoas em desespero que a rigor nunca e jamais importa o que nós ainda temos a esperar da vida, mas sim exclusivamente o que a vida espera de nós. (…) Em última análise, viver não significa outra coisa se não arcar com a responsabilidade de responder adequadamente às perguntas da vida, pelo cumprimento das tarefas colocadas pela vida a cada indivíduo, pelo cumprimento da exigência do momento.

Essa exigência, e com ela o sentido da existência, altera-se de pessoa para pessoa e de um momento para o outro. Jamais, portanto, o sentido da vida humana pode ser definido em termos genéricos; nunca se poderá responder com validade geral à pergunta por esse sentido. (…) Essa concreticidade está dada pelo destino do ser humano, que para cada um sempre é algo único e singular. Nenhum ser humano e nenhum destino podem ser comparados com outros; nenhuma situação se repete.

(…)

O que nos importava era o objetivo da vida naquela totalidade que inclui também a morte e assim não somente atribui sentido à “vida”, mas também ao sofrimento e à morte. Esse era o sentido pelo qual estávamos lutando!

Um dos aspectos que ele menciona com muita frequência é a existência de maus tratos de um prisioneiro em relação aos outros. Havia alguns prisioneiros que possuíam privilégios, os capos. Eles recebiam um tratamento diferenciado, uma quantidade maior de alimento e ajudavam a supervisionar os outros prisioneiros. E, muitas vezes, os capos tratavam pior os outros prisioneiros do que os próprios guardas.

Como é possível que pessoas de carne e osso cheguem a infligir tamanho sofrimento a outros seres humanos?

(…) existem sobre a Terra duas raças humanas e realmente apenas essas duas: a “raça” das pessoas direitas e a das pessoas torpes. Ambas as “raças” estão amplamente difundidas. Insinuam-se e infiltram-se em todos os grupos: não há grupo constituído exclusivamente de pessoas decentes, nem unicamente de pessoas torpes. Neste sentido não existe grupo de “raça pura”, e assim também havia uns e outros sujeitos decentes no corpo da guarda.

Justamente os mais agressivos e sádicos eram selecionados para integrar este grupo específico. E as pessoas mais justas, mais corretas e boas acabavam morrendo mais rápido, porque dentro dos campos de concentração havia a lei do mais forte; a seleção daqueles que sabiam evitar seu embarque para um campo de extermínio, ou daqueles que se valiam dos prisioneiros que estavam morrendo para lhes tirar as roupas ou o resto da comida.

Somente aos poucos se consegue levar essas pessoas a reencontrar a verdade, tão trivial, de que ninguém tem o direito de praticar injustiça, nem mesmo aquele que sofreu injustiça. (…) Além da deformação que ameaça a pessoa repentinamente liberta da pressão psicológica, ainda existem duas outras experiências fundamentais que podem colocá-la em perigo, prejudicá-la ou deformá-la sob o ponto de vista caracterológico. São a amargura e a decepção da pessoa que, livre, volta à sua vida antiga.

A primeira parte do livro atiçou a minha tentativa de compreensão deste evento trágico em nossa história que foi a Segunda Guerra. Eu sei que nunca conseguirei entender, porque não há sentido.

A segunda parte tenta, justamente, mostrar que podemos encontrar um sentido em cada momento de nossas vidas, mesmo quando ele nos parece inexistente. E o que podemos fazer para evitar o vazio existencial e o tédio na vida diária.

Nem todo conflito é necessariamente neurótico; certa dose de conflito é normal e sadia. De forma similar, o sofrimento não é sempre um fenômeno patológico; em vez de sintoma de neurose, o sofrimento pode ser perfeitamente uma realização humana, especialmente se o sofrimento emana de frustração existencial. (…) A frustração existencial em si mesma não é patológica nem patogênica. A preocupação ou mesmo o desespero da pessoa sobre se a sua vida vale a pena ser vivida é uma angústia existencial, mas de forma alguma uma doença mental. É bem possível que interpretar aquela em termos desta motive um médico a soterrar o desespero existencial do seu paciente debaixo de um monte de tranquilizantes. Sua função, no entanto, é guiar o paciente através das suas crises existenciais de crescimento e desenvolvimento.

O que o ser humano realmente precisa não é um estado livre de tensões, mas antes a busca e a luta por um objetivo que valha a pena, uma tarefa escolhida livremente.

Uma vez mostrado o impacto benéfico da orientação para o sentido, volto-me agora para a perniciosa influência daquela sensação da qual se queixam tantos pacientes hoje em dia, ou seja, da total e extrema falta de sentido de suas vidas. Eles carecem da consciência de um sentido pelo qual valesse a pena viver. Sentem-se perseguidos pela experiência de seu vazio interior, de um vazio dentro de si mesmos; estão presos na situação que tenho chamado de “vazio existencial”.

Quanto mais a pessoa esquecer de si mesma – dedicando-se a servir uma causa ou a amar outra pessoa -, mais humana será e mais se realizará.

Amor é a única maneira de captar outro ser humano no íntimo de sua personalidade. Ninguém consegue ter consciência plena da essência última de outro ser humano sem amá-lo.

Talvez tenha havido uma identificação muito grande de minha parte com os aspectos psicológicos que ele descreve no livro. Minha vida passou a ter muito mais sentido quando percebi a importância de me dedicar aos outros, de fazer algo positivo para algumas pessoas, mesmo que fossem poucas. Fico imaginando a corrente positiva que haveria se cada um tentasse causar uma influência positiva para algumas poucas pessoas que estão próximas.

Independente de alguém se sentir atraído mais pela primeira ou pela segunda parte do livro, acho, sinceramente, que vale muito a pena sua leitura.

 

 

 

  Título original: Trotzdem Ja zum Leben sagen: Ein Psychologe erlebt das Konzentrationslager Primeira publicação: 1946 Editora: Vozes (2015) – 37a. Edição – 184 páginas Tradutores: Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline ISBN 13: 9788532606266 Sinopse: Publicado em muitas línguas, sucessivas edições e milhões de exemplares, este despretensioso texto em linguagem narrativa constitui a porta de entrada para a logoterapia, a […]


  • Ola Silvia é un artigo muito interesante, e outro livro mais engadido a la lista de pendentes de sua parte. Os nazismo baseaban o holocausto en la luta natural e na pervivencia do mais forte. Non foi uma dotrina humanista mais bem acho que é satánica. Um beijo.
    Hoje escrivo sim ajuda do tradutor.

    • Pude compreender sem problemas! Se quiser, pode escrever sempre assim.
      O Nazismo foi um regime extremamente cruel, de fato. E totalmente baseado na propaganda e no populismo como poderes de convencimento das massas.
      Uma coisa horrível. E o que acho mais triste é que acho muito possível que outros regimes assim surjam.
      Beijo!


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