20.08.2016
Le rêve de Marc Chagall

Le rêve de Marc Chagall

 

Minha vida é insólita. Ou serão todas as vidas assim? Neste caso, nenhuma vida é insólita e são todas normais em sua estranheza.

Tenho contato com pessoas que não possuem a mínima condição de subsistência, sem comida, higiene, agasalho, geladeira ou uma cama para dormir. Sofro com isso em todas as camadas da minha alma (não sei se a alma possui camadas). Adoraria ter condições de ajudar as pessoas, ajudar a educar, dar saúde, condições de vida e trabalho. Faço esforço. Tento fazer um pouquinho que consigo. De repente, acho que é tão pouco… e desanimo. O que estou fazendo de errado? Será que estou fazendo o meu melhor? Será que depende do esforço dos outros também, daqueles diretamente afetados, na tentativa de sair da passividade?

Minha mente funciona em uma turbulência constante. Penso o tempo todo. Analiso a minha vida e de todas as pessoas que surgem na minha frente. Pessoas que precisam falar, dizer tudo sobre suas vidas, contar todos os fatos; o que elas escondem por trás de todas as palavras preferidas sem a menor reflexão? Guardam dentro de si, de fato, todos os medos, as angústias, as tristezas. Quantos deles não estarão falando exatamente o contrário do que sentem, em uma tentativa desesperada de se convencer dos sentimentos? Como se o discurso fosse para eles mesmos; um consolo para as infelicidades de suas vidas.

Quantos outros não se calam, mas dizem com os olhos muito mais do que gostariam? Aquela tristeza contida, as insatisfações, os receios, a vida que não saiu como planejada. E um sorriso vem aos lábios; mas aquele sorriso que os olhos não conseguem acompanhar. É mais difícil mentir com os olhos, não é? Devíamos ter a chance de escolher um completo estranho por semana e desabafar todas as nossas tristezas e preocupações; acho sempre mais fácil expor os sentimentos para um completo estranho. Ele pode nos julgar, mas não fará diferença em nossas vidas. Pode-se ser quem se quer ser de verdade e dizer as coisas mais terríveis que não temos coragem de confessar.

Preocupo-me com pessoas queridas, aquelas que deixam de mandar notícias, que se afastam. Tento pedir notícias e nem sempre as obtenho. E percebo que sou pouco insistente. Tenho receio de atrapalhar, de ser inconveniente, e deixo de ir atrás, passando a achar que o problema deve estar comigo. Este é um comportamento absolutamente autocentrado. Não sou o centro de nada. Nem mesmo da minha própria vida. E percebo que não sou a amiga que deveria ser. Desejo que pessoas se interessem pelo que eu escrevo e tenho enorme dificuldade de encontrar o tempo necessário para visitar o espaço de tantas pessoas que me são queridas. Que ego é esse que me acompanha?

Felizmente, um grande amigo que me preocupava deu notícias hoje e está bem. Sinto-me mais leve.

Eu sou boa ou ruim? Ou sou simplesmente humana com todas as suas dificuldades de percepção, de julgamento e de análise de cada situação? Faço coisas boas. E quantas deixo de fazer? Não significa que faça o mal. Mas, simplesmente, omito-me… fecho os olhos, abaixo a cabeça e finjo que não vejo tudo o que está à minha volta. Seria possível viver pensando constantemente no sofrimento das mais variadas pessoas?

E em meio ao caos do mundo, tranco todos os sentimentos em um cofre forte e dou vazão ao meu lado mais superficial e leviano: faço uma consulta com um cirurgião plástico para corrigir defeitos inexistentes de um rosto que tenta a todo custo não expressar as dores que ocupam a alma.

 

 

  Minha vida é insólita. Ou serão todas as vidas assim? Neste caso, nenhuma vida é insólita e são todas normais em sua estranheza. Tenho contato com pessoas que não possuem a mínima condição de subsistência, sem comida, higiene, agasalho, geladeira ou uma cama para dormir. Sofro com isso em todas as camadas da minha […]


  • Olá Sílvia. Eu não sei se podese viver sempre preocupado com a situação dos outros, mesmo que nosso cérebro pode sustentar a longo desta angústia ou precisa um pouco de alegria para desenvolver uma vida aceitável. Eu acho que mesmo os santos foram capazes de encontrar a felicidade entre tanto sofrimento. Estou contente se eu puder ajudar a família, amigos e vizinhos quando é necessário. Para a extensão da minha pouca força e conhecimento. Por favor, não se esqueça de ser feliz. Um beijo.

    • Olá, Carlos!
      Obrigada pelo que você escreveu e por sua preocupação.
      Eu não sei se consigo ainda mudar este meu jeito de ser. Acho que eu desisti.
      Assim como tenho desistido dos meus sonhos. Acho que a única forma de fazer aquilo que eu de fato gostaria seria desaparecer sem deixar notícias, para que eu pudesse me desvincular das pessoas que esperam um determinado comportamento da minha parte.
      Você sabe, uma coisa que eu tento deixar plantado em meus filhos é que eles podem seguir o destino que eles quiserem. Não há necessidade de eles me provarem nada. Quero que eles tenham liberdade de seguirem sua vida.
      Eu não tenho essa liberdade. Fui criada devendo cumprir aquilo que as pessoas esperam de mim.
      Então, não sei se poderei seguir meus sonhos… aqueles dos quais já falei… morar à beira de uma praia, poder escrever e viver uma vida simples e tranquila.
      Acho que leio tanto em uma tentativa de fugir da minha realidade pessoal…
      Obrigada novamente por seu carinho!
      Beijo!

      • Entendo que devese façer o bom pouco a pouco, a modinho e sim merma da propia felicidade. Uma pessoa imfeliz non acho que poda doar aquelo do que carece. Sinon? Um beijo.

        • Mas não acho que eu seja infeliz… Sou uma pessoa que tem tudo o que precisa e estou cercada por pessoas que me amam…
          O que me falta, eu acho, é a possibilidade de dar vazão exclusivamente aos meus sonhos. Quando temos pais, filhos e pessoas que precisam de nós, é muito difícil ter total liberdade para fazer apenas aquilo que se quer. Seria até um pouco egoísta, não?

          • Acho que mais que egoísta é un sonho muito difícil. Embora non imposivle. Á familia ama e ten a segurança de que nos estamos perto. É Um feito. Un beijo.

            • É assim…
              Pode chegar o momento em que poderei ser mais livre para escutar mais meus próprios desejos.
              São escolhas que temos que fazer, não é verdade?
              Beijo!

  • Francine S. C. Camargo

    Silvia, tem uma parte do seu texto que me tocou muito, pois tenho vivido isso rotineiramente. Como lidar com pessoas que expressam seus sentimentos e você fica com essa sensação de que elas estão revelando exatamente o contrário do que pensam ou sentem (numa tentativa de converter seus próprios sentimentos, talvez, como você disse)? Num primeiro momento, a decepção me ataca, mas em seguida, sobrevém uma tristeza de se sentir incompleta até como interlocutora…
    É…acho que muitas dificuldades residem nisso…essa noção de nossas deficiências…
    Brigada pela reflexão.
    Beijo enorme.

    • Olá, Fran!
      Eu entendo esta sua decepção. Infelizmente, temos limitações quando precisamos intervir na vida do outro; porque isso não é feito de forma consciente e nem sempre as opiniões e conselhos de terceiros são bem vindos. Há momentos em que desisto. O problema é que desisto de intervir, mas continuo sofrendo por ver situações se agravarem.
      É muito difícil!
      E vejo que a maioria das pessoas não faz muita questão de olhar para dentro de si mesma ou de analisar os problemas por que passa com mais cuidado.
      Beijo grande!

  • Virginia Leite

    Você, como todos nós , podemos mudar nosso modo de ser ! Basta que busquemos a nossa força interior( que está em estado latente ) e a acionemos para alcançar todos os nossos sonhos, todos os nossos objetivos ., conciliando com a nossa vida material .

    • Mas como é difícil mudar, não é, Virgínia?

      • Virginia Leite

        Silvia, é difícil, porém, não é impossível !


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