1.08.2016

A guerra não tem rosto de mulher

 

Título original: У войны не женское лицо

Primeira publicação: 1985

Editora: Companhia das Letras (17/06/2016) – 1a. edição – 392 páginas

Tradutora: Cecília Rosas

ISBN13: 9788535927436

Sinopse: A história das guerras costuma ser contada sob o ponto de vista masculino: soldados e generais, algozes e libertadores. Trata-se, porém, de um equívoco e de uma injustiça. Se em muitos conflitos as mulheres ficaram na retaguarda, em outros estiveram na linha de frente. É esse capítulo de bravura feminina que Svetlana Aleksiévitch reconstrói neste livro absolutamente apaixonante e forte. Quase um milhão de mulheres lutaram no Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial, mas a sua história nunca foi contada. Svetlana Aleksiévitch deixa que as vozes dessas mulheres ressoem de forma angustiante e arrebatadora, em memórias que evocam frio, fome, violência sexual e a sombra onipresente da morte.

 

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Fazer a pergunta de Dostoiévski: o quanto há de humano no ser humano, e como proteger esse humano em si? Sem dúvida, o mal é tentador. Ele é mais hábil do que o bem. Mais atraente.

Este livro faz parte da parceria do blog com o Grupo Companhia das Letras. Foi enviado referente às publicações de junho de 2016.

Svetlana Aleksiévitch é uma jornalista e escritora, nascida na Ucrânia, e agraciada com o Prêmio Nobel de Literatura em 2015. Ela tem 5 livros publicados. Já comentei aqui sobre seu primeiro livro publicado no Brasil, “Vozes de Tchernóbil”.

Neste segundo livro publicado no Brasil pela Companhia das Letras, ela traz o relato das mulheres soviéticas que lutaram na Segunda Guerra. Quase 1 milhão de mulheres lutaram no Exército Vermelho.

Entendo agora a solidão de quem volta de lá. É como se viesse de outro planeta ou do além. Ela tem o conhecimento de algo que os outros não têm, e só é possível conquistá-lo ali, perto da morte.

A União Soviética entrou na Segunda Guerra depois de Hitler desrespeitar o acordo que tinha sido feito com Stálin e resolver invadir o país. Ocupou algumas regiões, o que levou à declaração de Guerra em 1941. E não apenas os homens foram enviados à Guerra, mas um grande número de mulheres optou por se alistar e combater no front. Algumas eram muito jovens (16 anos ou menos). Muitas fugiram de casa, porque os pais não consentiam. Estava dentro delas o ódio aos alemães e o desejo de defender seu país.

O espaço delas é sempre diferente do de seus ouvintes. Estão rodeadas por um mundo invisível. Pelo menos três pessoas fazem parte da conversa: a que está contando agora, a pessoa que ela era na época em que aconteceu e eu. Meu objetivo é, antes de mais nada, extrair a verdade daqueles anos. Daqueles dias. Sem falsear os sentimentos. Logo depois da guerra, a pessoa contaria uma guerra; passadas dezenas de anos, claro, algo muda, porque ela deposita nas lembranças toda a sua vida. Tudo de si. Aquilo que viveu nesses anos, o que leu, viu, quem encontrou. Por fim, se é feliz ou infeliz. Se conversamos a sós ou se há mais alguém por perto. Família? Amigos – quais? Se são amigos do front, é uma coisa; se são os demais, é outra. Os documentos são seres vivos, eles mudam e vacilam junto conosco, é possível extrair algo deles eternamente. Algo novo que nos é necessário justamente agora. Neste minuto. O que estamos procurando? Em geral, o que nos parece mais interessante e próximo não são os grandes feitos e o heroísmo, mas aquilo que é pequeno e humano.

Neste livro, Svetlana Aleksiévitch reúne inúmeros depoimentos de mulheres que sobreviveram à Guerra e contaram suas histórias. Quanto mais depoimentos ela recolhia, mais mulheres iam procurá-la para contar as histórias que ficaram guardadas por 40 anos. Ela recolhia depoimentos que eram gravados em fitas; mas muitas outras mulheres entraram em contato contando suas histórias em cartas.

É impossível chegar muito perto da realidade, cara a cara. Entre a realidade e nós existem os nossos sentimentos. Entendo que estou lidando com versões, cada um tem a sua, e delas, do volume e do cruzamento delas, nasce a imagem do tempo e das pessoas que vivem nele.

O manuscrito ficou guardado por anos. Inicialmente devido às dificuldades com a censura. Os censores cortaram depoimentos e trechos que não queriam que fossem divulgados aos leitores. Depois, ela teve dificuldade com as editoras e recebeu inúmeras negativas até conseguir encontrar alguém disposto a publicar seu livro e suas histórias consideradas naturalistas e realistas demais e que não exaltavam os soldados soviéticos e sua Vitória.

Eu e minha filha estávamos nos aprontando para ir ao parque. Andar no carrossel. Como explicar para uma menina de seis anos o que eu faço? Pouco tempo atrás, ela me perguntou: “O que é guerra?”. Como responder? Quero soltá-la nesse mundo com um coração terno, e ensino que não se pode arrancar uma flor sem motivo. Dá pena esmagar uma joaninha, de arrancar a asinha de uma libélula. Como explicar a guerra a uma criança? Como explicar a morte? E responder à pergunta: por que lá matam? Matam até os pequenos, como ela.

Ela conta sobre todos os aspectos da Guerra: do terror dos campos de batalha, com feridos e mortos, até a tentativa das moças de manter alguma vaidade em meio àquele horror.

Gostamos cada vez menos da guerra, é cada vez mais difícil encontrar uma justificativa para ela. Para nós já é apenas uma matança. Ao menos para mim.

São histórias das enfermeiras e das dificuldades de cuidar dos soldados alemães, de enfrentar a morte e fazer o melhor sem as mínimas condições de saúde e higiene.

Os homens se escondem atrás da história, dos fatos, a guerra os encanta como ação e oposição de ideias, diferentes interesses, mas as mulheres são envolvidas pelos sentimentos. (…) Vou repetir mais uma vez: a guerra delas tem cheiro, cor, o mundo detalhado da existência; (…)

Histórias da rotina diária paralela à guerra, com as moças contratadas para lavar as roupas ou aquelas que cozinhavam. Como era ficar menstruada, embora muitas delas tenham tido os ciclos interrompidos, talvez por causa do estresse e da tensão.

No centro, sempre o fato de não querer e não aguentar morrer. E é ainda mais insuportável e angustiante matar, porque a mulher dá a vida. Presenteia. Carrega-a por muito tempo dentro de si, cria. Entendi que para as mulheres é mais difícil matar.

São histórias dos amores da Guerra, aqueles que duraram apenas durante os anos de combate. Outros começaram no front e a união persistiu para o resto da vida. Aquelas que perderam o marido na Guerra. Os abusos… os encontros clandestinos… as gestações inesperadas…

“Ninguém se animava a transmitir a ordem para a mãe, mas ela mesma adivinhou. Foi baixando a criança enroladinha para a água e segurou ali por um longo tempo… A criança não gritou mais… Nenhum som… E nós não conseguíamos levantar os olhos. Nem para a mãe, nem uns para os outros…”

Existem as histórias dos filhos pequenos que foram deixados vivendo com avós para reencontrarem suas mães após 4 anos. Ou da mãe que carregou sua filha com ela enquanto pôde, até que conseguisse um transporte seguro para levá-la para casa.

“Capturávamos prisioneiros e lavávamos para o destacamento. Mas não fuzilávamos, era uma morte leve demais para eles: nós os esfaqueávamos como porcos, com as baionetas, cortávamos em pedacinhos.”

Tiveram que enfrentar o frio extremo, a fome, todo tipo de situações adversas (ratos, piolhos…).

“Estávamos avançando… Os primeiros povoados alemães… Éramos jovens. Fortes. Estávamos havia quatro anos sem mulheres. Nas adegas havia vinho. Petiscos. Capturamos umas moças alemãs e… Dez homens estupravam uma. Não havia mulheres o suficiente, a população havia fugido do Exército soviético, pegamos as jovens. Meninas… Uns doze, treze anos… Se choravam, batíamos nelas, enfiávamos algo na sua boca. Elas sentiam dor e achávamos engraçado. Agora não entendo como pude… Uma rapaz de família intelectual… Mas fui eu…”

E a dificuldade inicial de trazer estas histórias à tona, de volta à lembrança… Histórias que ficaram guardadas por tantos anos… A maioria chorava, tinha dificuldade em contar. Outras pediram para que o nome não fosse revelado por causa dos filhos ou netos.

“Achávamos que depois da guerra tudo mudaria… Que Stálin acreditaria em seu povo. Mas a guerra ainda nem tinha terminado, e os trens já estavam indo para Magadan. Trens com os vencedores… Prenderam quem havia sido feito prisioneiro pelos alemães, quem vivera nos campos de concentrações alemães, a quem os alemães haviam levado para trabalhar: todo mundo que vira a Europa. Que podia dizer como as pessoas vivem lá. Sem comunistas. Como são as casas e como são as estradas. Que não havia colcozes em lugar nenhum…”

O livro traz todas as situações extremas da Guerra. Todas as coisas terríveis. Mas alguns gestos de bondade, de solidariedade, de ajuda ao adversário, da percepção que são todos humanos combatendo uma Guerra que fora decretada por governantes que não estavam ali em meio aos tiros e bombardeios.

Foi nele que começou a busca que duraria sete anos, sete anos surpreendentes e torturantes, em que descobriria o mundo da guerra, um mundo cujo sentido ainda não foi totalmente decifrado por nós. Sentiria dor, ódio, tentação. Ternura e perplexidade… Tentaria entender qual é a diferença entre morte e assassinato, e onde está a fronteira entre o humano e o desumano. Como uma pessoa fica a sós com essa ideia absurda de que pode matar outra? Inclusive, de que é obrigada a matar. E descobriria que na guerra, além da morte, há uma infinidade de outras coisas, há tudo aquilo que existe em nossa vida cotidiana. A guerra é vida também. Me depararia com uma quantidade incontável de verdades humanas. Mistérios. Refletiria a respeito de perguntas de cuja existência eu não teria suspeitado antes. Por exemplo, por que não nos espantamos com o mal; falta em nós o espanto diante do mal?

Svetlana Aleksiévitch me conquistou em seus dois livros publicados no Brasil. Talvez o sentimento que tenha deixado em mim seja profundo demais para que eu seja capaz de descrevê-lo adequadamente através de palavras.

Eu ainda tenho dificuldade de compreender as Guerras, o ódio extremo, a intolerância absoluta. Não cabe em mim o sentimento de aceitação de qualquer Guerra ou da capacidade de um ser humano tirar a vida de outro, esse outro um completo desconhecido e que nunca fez nada para haver, ao menos, uma justificativa para que sua vida seja aniquilada.

Eu leio, leio, leio sobre as Guerras, em especial sobre a Segunda Guerra e continuo atônita e angustiada. É a mesma sensação que me preenche frente a tanto atentados terroristas que temos visto recentemente ou de tantas mortes que seguem os assaltos nas grandes cidades.

Acho que terei apenas que aprender a lidar com tudo isso, com esse sentimento, com essa incompreensão.

Ao menos, o livro teve a grande virtude de dar um olhar mais humano para a Guerra, para suas dores e sofrimentos, que vão muito além de números de mortos e de outras estatísticas.

“Eu não gosto de brinquedos de guerra, esses brinquedos de guerra para crianças. Tanques, metralhadoras… Quem inventou isso? Me revira a alma. Nunca comprei nem dei brinquedos de guerra para as crianças. Nem para as minhas, nem para as dos outros. Uma vez, alguém trouxe para minha casa um aviãozinho militar e uma metralhadora de plástico. Joguei no lixo ali mesmo. Na hora! Porque a vida humana é um dom… Um grande dom! O próprio ser humano não é senhor desse dom.

(…)

Não pode existir um coração para odiar e outro para amar. O ser humano só tem um, e eu sempre pensava em como salvar meu coração.”

– Tamara Stiepánovna Umniáguina, terceiro-sargento da guarda, enfermeira-instrutora

 

 

 

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  Título original: У войны не женское лицо Primeira publicação: 1985 Editora: Companhia das Letras (17/06/2016) – 1a. edição – 392 páginas Tradutora: Cecília Rosas ISBN13: 9788535927436 Sinopse: A história das guerras costuma ser contada sob o ponto de vista masculino: soldados e generais, algozes e libertadores. Trata-se, porém, de um equívoco e de uma injustiça. Se em muitos conflitos as […]


  • Olá Silvia, eu acho que é impossível escibir um breve resumo do que aconteceu com um milhão de mulheres. Esta é longa e bem resumido. Svetlana permite falar com os jogadores eo livro é fundamental para compreender as atrocidades que são cometidas durante a guerra em nome do país. Europa foi devastada pelo menos desde 1933, ainda hoje, a paz não é granatizada. No entanto, eu não posso explicar por que os humanos ir para a batalha cantando. É um tema angustiante. Um beijo e muito obrigado para o seu artigo.

    • Olá, Carlos!
      A Europa ainda sofre bastante mesmo. E, ainda assim, fico impressionada com sua capacidade de reconstrução.
      Sobre as guerras, acho que a Svetlana escreve muito bem no capítulo introdutório: é algo que foge à minha capacidade de compreensão. Como pode haver tanto ódio e uma facilidade tão grande de matar outras pessoas… E não é apenas as guerras que me deixam indignada; também não me conformo com as torturas dos regimes ditatoriais, os atos de terrorismo, as máfias e brigas de gangues…
      Será que um dia conseguirei entender? Acho que não…


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