20.06.2016

A Vênus das Peles

 

Título original: Venus im Pelz

Primeira publicação: 1870

Tradutor: Saulo Krieger

Editora: Hedra (16-11-2015)

ASIN: B0183X9I9O

Sinopse: A Vênus das peles”, de Sacher-Masoch, foi publicado originalmente em 1870, e narra pela primeira vez, com detalhe e clareza, a submissão sexual e existencial, ao mesmo tempo dolorosa e prazerosa, servil e libertária – pois se trata de servidão voluntária -, de um homem a uma mulher. O livro não é apenas a obra fundamental do masoquismo. Ele é também uma das obras fundamentais da cultura contemporânea, em que a liberdade e a realização individuais se alimentam reciprocamente. O masoquismo, termo depois consagrado por Freud, o sadismo e inúmeras outras práticas hoje conhecidas, reconhecidas e nomeadas, como o fetichismo, o travestismo e o próprio homossexualismo antes conhecido como “o amor que não ousa dizer seu nome” – ousam nomear-se quando deixam de ser negados e renegados e podem, entre outras coisas, tornar-se referências de grandes obras de arte, como a “Vênus das Peles”.

 

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Leopold von Sacher-Masoch nasceu em 1836 na cidade de Lemberg, situada na Galícia, província ao sul da Polônia que, desde 1772, estava incorporada ao Império Austro-Húngaro. Hoje sua terra natal fica em território ucraniano. Entretanto, definia-se a si mesmo como alemão, invocando sua identidade com a língua germânica, na qual pensava e “sentia”. Tal identidade não impediu que sua verdadeira terra, a Galícia e os legendários Cárpatos, fossem o cenário de seus primeiros escritos, que ainda guardavam um caráter regionalista. Filho de família aristocrática, aprendeu francês ainda na infância, língua em que se alfabetizou juntamente com o alemão, para enfim estudar filosofia e ciências. Desde cedo alimentou o sonho de se tornar um escritor importante e reconhecido. Com esse desejo, elaborou o projeto de publicação de um conjunto de livros que se chamaria O legado de Caim , no qual retrataria aspectos da condição humana. Esse tema era, de fato, o que mais o instigava, e que viria a ser o motor de sua produção literária. Tanto que o presente romance, A vênus das peles , obra que o imortalizou, aborda, de modo direto e corajoso, um aspecto tão misterioso e intrigante da alma humana que é o prazer sensual que se pode extrair do sofrimento.

Antes da publicação de A vênus das peles, Sacher-Masoch já era um escritor conhecido por diversas obras. Entretanto, por uma ironia, a fama que desejava alcançar foi sobrepujada por aquela que veio do uso do seu próprio nome na invenção da palavra masoquismo.

Eu nem mesmo sabia da existência desse livro e desconhecia a origem da palavra masoquismo. Recentemente, assisti ao filme “A Pele de Vênus” (“La Vénus à la fourrure” – 2013), de Roman Polanski, com Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric. O filme fala de uma adaptação da obra de Sacher-Masoch para o teatro e os dois personagens ensaiam a peça. Gostei muito do filme e fiquei interessada nessa obra do Século XIX.

 

 

Mas a leitura me surpreendeu. De forma positiva. Acho que pelo fato de ser diferente do que eu esperava. Não é apenas uma relação masoquista (nos termos como empregamos o termo hoje em dia). Na verdade, trata-se de uma história de um amor absolutamente intenso e apaixonado. Severin propõe se entregar a ela completamente, ser seu escravo, servi-la, mas não pode pensar em perdê-la. Wanda não aceita a proposta de imediato. Ela confessa que tem receio de como irá se comportar ao final do tempo proposto por Severin.

Só se pode verdadeiramente amar o que está acima de nós, o que nos oprime pela beleza, pelo temperamento, pelo espírito, pela força de vontade, e se torna nossa déspota.

Ela acaba cedendo ao desejo dele, após muita insistência, e eles assinam um contrato em que ele se compromete a ser seu escravo pelo período de um ano.

Ser teu escravo! Sem qualquer limite, tua propriedade, sem vontade, para que disponhas de mim a teu bel-prazer, e que disso não tenhas o menor arrependimento.

No início, ela entra no jogo que ele idealizou, mas demonstra amor, carinho e receio de estar se excedendo nas punições.

Sim, com toda a seriedade eu digo que é meu desejo ser teu escravo. Quero que teu poder sobre mim seja sacramentado pela lei, que minha vida esteja em tuas mãos, que nada neste mundo me proteja de ti ou me salve de ti. Ah! Volúpia, sentir que estou completamente sob o teu arbítrio, que dependo de teu humor, de um gesto de teus dedos. E então que ventura! , se fores piedosa, se o escravo puder beijar teus lábios, depender de ti na vida e na morte. Ajoelhei e apoiei em seu regaço a minha fronte, que ardia.

Mas chega um momento em que ela assume de fato a posição de déspota e passa a desejar feri-lo e magoá-lo de verdade. Ele acaba se permitindo passar por várias humilhações, até o limite de sua tolerância.

A linguagem e as cenas são descritas da forma correspondente ao de outros livros do Século XIX. Não existem descrições de cenas explícitas, nada além do jogo de sedução e de subordinação.

A mim, o livro passou a ideia de um amor muito sofrido, em que o homem se entrega de corpo e alma, esperando com isso, ter a mulher ao seu lado para sempre. Ele se desespera apenas de pensar na possibilidade de ela vir a deixá-lo.

Não acho que sejam raros esses amores extremos e de entrega completa. Nem mesmo acho que seja algo condenável. Mas uma relação desse tipo exige que o déspota também ame o subordinado. Ou a relação de crueldade se impõe. E será que o déspota é capaz de continuar amando indefinidamente aquele que se entrega com tanta docilidade à completa dominação?

É uma leitura que eu recomendo. Gostei muito, embora eu tenha ficado com o gosto amargo de um sofrimento intenso.

A moral é que a mulher, tal como a natureza a criou e como o homem atualmente a educa, é sua inimiga, podendo tão-somente ser sua escrava ou sua déspota jamais sua companheira. Isto, só quando ela tiver os mesmos direitos que ele, só quando por nascimento, pela formação e pelo trabalho, for igual a ele.

 

 

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  Título original: Venus im Pelz Primeira publicação: 1870 Tradutor: Saulo Krieger Editora: Hedra (16-11-2015) ASIN: B0183X9I9O Sinopse: “A Vênus das peles”, de Sacher-Masoch, foi publicado originalmente em 1870, e narra pela primeira vez, com detalhe e clareza, a submissão sexual e existencial, ao mesmo tempo dolorosa e prazerosa, servil e libertária – pois se trata de servidão voluntária -, de […]


  • Ola Sílvia acho que um grande amor não precisa de mais concessões do que o necessário, claro que, quando você vive deve desistir de muitas coisas e aprender a subordinar as suas próprias necessidades às de outros com bom humor, não entendo uma relação baseada na dominância. Apesar de entender que o livro apresenta um tema original e pode ser muito bem escrito. Não sabia a origem da palavra masoquismo. Um abraço.

    • Eu gostei muito do livro, Carlos…
      É uma história muito sofrida e não achei erótica, achei triste.
      Talvez minha experiência do amor seja assim… para mim, o amor está sempre associado a tristeza e sofrimento…
      Beijo!


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