2.06.2016
Série "Reflections" de Tom Hussey

Série “Reflections” de Tom Hussey

 

Por que não consigo me enxergar como realmente sou? Por que me olho no espelho e vejo beleza onde não mais existe? Por que não percebo a realidade das rugas, da perda de firmeza da pele, do contorno disforme do corpo, dos fios brancos e rebeldes que insistem em surgir? Meu reflexo mostra a verdade, mas meu cérebro não vê essa verdade. Ele recria a imagem e a vê da forma como gostaria que fosse.

Por quê?

Por que não consigo controlar racionalmente as percepções e desejos do meu cérebro? Por que a juventude passa tão rápido e não dei atenção a ela como deveria, ocupada que estava estudando, pensando no futuro, tendo filhos? Enquanto jovem, programava o futuro; quando este chegou e já não tenho a juventude, olho saudosista para o passado. Mas não há volta. E é ridículo querer viver como jovem depois que a idade já chegou.

Sou sóbria na forma de me vestir, de me maquiar, de me portar… sóbria como pede a minha idade. Mas o frescor da juventude me encanta. Talvez porque eu não tenha me permitido viver tudo o que gostaria naquela época. Sempre preocupada com a opinião e o julgamento dos outros; sempre achando que eu deveria manter a austeridade. De que vale tanta austeridade?

Quero algo que não posso mais ter. Não tenho mais o direito. Escolhi o caminho da virtude, sem me permitir desvios. Quando resolvi mudar o caminho, não era mais possível. Todos os desvios que imprudentemente arrisquei custaram-me caro demais. Já não podiam ser debitados na conta da juventude e de suas atitudes inconsequentes. Não tenho mais o direito.

Vivo sonhando como se fosse a protagonista de um filme: a mulher jovem, bonita, bem sucedida, elegante, viajada e com um companheiro compatível com ela em todos os aspectos. E quando me vejo (nos raros momentos em que me percebo como sou), lá estou eu, avançada em anos, com dores que me impedem de levar uma vida normal e de viajar como gostaria, sem um futuro garantido (quando deveria pensar em me aposentar), desengonçada e pouco atraente. Acho que a única coisa compatível com o meu eu dos sonhos é a inteligência. De resto, vivi uma vida para constatar que fiquei muito aquém da pessoa projetada nas minhas idealizações.

De que adianta chorar ou reclamar ou me deprimir? De nada! Nem mesmo um único dia da minha vida vai voltar. O tempo vivido é passado. Há apenas o que posso fazer daqui para a frente.

E quando surgem esses momentos de extrema desilusão em que não quero nenhuma das perspectivas possíveis? Momentos em que me dou conta de que não quero vislumbrar um futuro de isolamento e também não concebo mais a possibilidade de um grande amor?

Estou cansada de viver de sonhos, de enxergar uma pessoa irreal, de querer viver o amor dos filmes, de me reconhecer em personagens dos livros que leio. Sinto-me como um Dom Quixote, criando a realidade como gostaria que fosse, entrando em batalhas ridículas, simplesmente por querer um mundo ideal, com pessoas nobres e que faça sentido. Ao menos, Dom Quixote tinha seu parceiro de jornada…

Como vai acabar a minha novela? Que final vou escolher?

– Sílvia Souza

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  Por que não consigo me enxergar como realmente sou? Por que me olho no espelho e vejo beleza onde não mais existe? Por que não percebo a realidade das rugas, da perda de firmeza da pele, do contorno disforme do corpo, dos fios brancos e rebeldes que insistem em surgir? Meu reflexo mostra a […]


  • Ola Silvia, parece-me uma pessoa bonita e boa e muito mais jovem que eu. O tempo é enganosa e eu acho que é melhor não prestar muita atenção. Os anos voan e cada um dos nossos dias é um conseciencia unívoca dos mil já decorridos, é importante a ser em boa forma e muito mais é manter a mente em condições. Talvez a aparência física na mulher é mais decisiva, embora eu recomendo um exercício, todas as noites antes de dormir, rever o que foi novo, o que foi belo, o que foi aprendido durante o dia, mesmo talvez você gosta de manter um diário em que escrever essas boas impressões para que no dia seguinte terá que adicionar outros. ¿Talvez algum hobby saborosa em que você pode medir seu progresso, pintura, fotografia, dança, música pode expandir seu círculo de amigos? Um grande abraço.

    • Carlos, fico muito tocada e grata pelo teu carinho!
      Achei tua ideia do diário muito boa! Acho que vale a pena colocá-la em prática… Vou começar hoje!
      Sou uma pessoa abençoada e minha vida tem inúmeras coisas boas. Hoje mesmo, meu dia foi especial por causa do feedback de dois pacientes que atendi… e receber uma troca positiva é algo que não tem preço! Nada vale mais do que um carinho, um abraço, um beijo…
      Não acho que meu círculo de amigos seja assim tão pequeno. Mas as amizades são muito superficiais… e acho que minha solidão é na alma… Sinto-me pouco compreendida… não sei se é possível entender…
      Acho que me ocupo bastante… participo de um grupo de escrita, trabalho, tenho meus filhos, faço exercícios (dança e pilates)…
      Não acho de forma alguma que minha vida seja ruim… Só não sei o que quero daqui para a frente…
      Um grande abraço, com todo meu carinho!

  • Francine S. C. Camargo

    Como vai acabar sua novela, não sei, não há como saber…mas estou aqui em frente à TV acompanhando todos os capítulos e acreditando ser possível que você a reescreva a todo momento. Novela é assim, tem dias monotónos, insones e vazios e dias em que aventuras surgem aos montes antes do epílogo. E, se quiser, posso escrever alguns capítulos dessa história junto com você, da forma que for possível…beijo no coração que é pra segunda-feira se agasalhar.

    • Que lindas suas palavras, Fran!
      Foram um presente!
      Eu sei que a vida vai nesses altos e baixos… às vezes, cansa e dá vontade de desistir de tudo… E preciso, com urgência, arrumar um objetivo real e possível…
      Obrigada, de coração!


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