21.05.2016

“Death and Life” by Gustav Klimt

 

Escutava aquela sinfonia tranquila. Sons que se repetiam e se harmonizavam. A presença frequente de uma voz doce, melodiosa e calma.

Não há consciência. Apenas o acordar e o adormecer. Alguns momentos mais claros, outros mais escuros. Aquecimento. Bem estar. O nada do antes. O desconhecido do depois.

Em algum momento, as coisas começaram a mudar. Algumas forças externas surgiram. Apertavam. Empurravam.

A tranquilidade desapareceu. Escutava mais vozes, vozes desconhecidas e agitadas. A sinfonia mudava também; acelerava-se o andamento da música.

A cabeça bateu em algo. Mas a pressão não parava. Empurrava cada vez mais. O ambiente foi ficando mais seco e uma força puxava a cabeça tanto quanto sentia a pressão comprimindo por todos os lados.

Os espaços diminuíram. Não tinha mais como se mover. Sentia o coração acelerar. Um medo (já havia medo?). Era um esmagamento. O corpo todo se ajustava àquela redução do ambiente.

De repente, uma força mais forte e sentiu se apertar ainda mais em um túnel. Uma luz forte atravessou suas pálpebras ainda fechadas. Algo segurava fortemente seu pescoço e suas pernas. A redução da pressão permitiu que seu tórax se movesse e uma grande quantidade de ar penetrou em seus pulmões pela primeira vez. Era tudo mais frio. Escutava sua própria voz, que vinha em um choro forte, sofrido, da dor pela qual tinha passado.

Foi envolvida em algo que lhe incomodava a pele sensível. Depois, fora apoiada em uma superfície dura (tudo tinha sido macio e confortável até aquele momento). Continuava chorando intensamente e, mesmo assim, sentiu algo em sua boca e seu nariz que incomodavam terrivelmente.

Sentia-se só. Assustada e só.

Passavam algo por todo seu corpo, como se quisessem limpar o que ainda lhe conectava ao mundo em que vivera até então. Tudo incomodava. A pele doía. Eram atritos desconhecidos e desconfortáveis.

Aqueceram-na, envolvendo em algo. Mais atrito. Percebia ser transportada, como se voasse em meio àquele ambiente agitado.

Foi colocada em outra superfície. Dessa vez macia e quente. Com um cheiro familiar.

Nesse lugar se sentiu, de repente, acolhida e o choro diminuiu de intensidade. Talvez não estivesse mais tão só.

Uma voz conhecida soou em meio ao barulho da sala. Foi o suficiente para que ficasse um pouco mais calma.

A voz era sua segurança, sua força e seu suporte para enfrentar aquela nova realidade.

– Sílvia Souza

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  Escutava aquela sinfonia tranquila. Sons que se repetiam e se harmonizavam. A presença frequente de uma voz doce, melodiosa e calma. Não há consciência. Apenas o acordar e o adormecer. Alguns momentos mais claros, outros mais escuros. Aquecimento. Bem estar. O nada do antes. O desconhecido do depois. Em algum momento, as coisas começaram […]


  • Excelente.

    PS: Os olhos da autora são de um azul entre o céu e o mar…

    • O azul do Mediterrâneo… em um dia maravilhoso de sol…
      Gosto muito dessa combinação!

  • Caramba, a realidade da transição entre o aconchego do útero materno e o mundo real… Primeiro dos sofrimentos pelos quais o humano passa. Muito bom!

    • Que bom que gostou!
      Obrigada por deixar seu comentário!
      ☺️

  • Muito bom !

  • Não sei por que (não há motivo de pesquisa, imagino), mas me acalmou e te agradeço.

  • você tem a imaginação de um grande romancista. Eu acho que todos mostramos o nosso desacordo quando chegamos a um mundo em que até mesmo a respiração é um trabalho. Um abraço.

    • Ah! Carlos!
      Bem que eu gostaria de ter a imaginação de um grande romancista… e a mesma facilidade para trabalhar com as palavras… Infelizmente, não acho que seja o caso.
      Mas fico muito grata por suas palavras!
      Abraço!


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