19.04.2016
Mother and Child de Pablo Picasso (1901)

Mother and Child de Pablo Picasso (1901)

 

Meu ex marido costumava dizer uma frase (não sei se é um ditado ou uma citação de outro autor) sobre a diferença entre ser mãe e ser pai: a mãe se joga para amortecer a queda do filho, enquanto o pai espera que ele caia e depois estende a mão para ajudá-lo a se levantar. Independente da autoria, acho que essa frase contém muita verdade, mesmo que haja suas exceções.

Se eu pudesse, tomaria para mim todas as dores dos meus filhos, todas as doenças, sofrimentos, dificuldades da vida. Eu sei que isso evitaria que eles tivessem suas próprias experiências que levam ao crescimento, ao amadurecimento e que permitem que eles se transformem em homens autônomos. Por isso, contenho-me. Evito interferir. Sofro eu, junto com eles, mas permito, a muito custo, que eles enfrentem sozinhos cada uma das dificuldades, sabendo que estou ao lado, disponível para desabafos, oferecendo meu ombro e meu colo para um abraço ou para consolar o choro.

O filho vai cair quando começar a andar. Vai sofrer na escola quando tiver contato com outras crianças e quando disputarem um brinquedo ou um livro. Passará por resfriados, diarreias e viroses diversas. Deverá ser contrariado, obrigado a se alimentar da forma correta. Terei que dizer mais “NÃO” do que “SIM”.

Eles terão que fazer as próprias amizades, enfrentar os preconceitos, achar o próprio espaço na sociedade e perceber se serão parte de algum grupo ou iniciarão um movimento próprio. Irão brigar, notar que há muita falsidade, que aqueles que acreditam ser amigos vão falar pelas costas, puxar o tapete e fazê-los sofrer.

Como ensiná-los a se aproximar das pessoas? A sentir aqueles que são confiáveis ou não? A se proteger da violência, mas continuar admirando o mundo e suas belezas, não se privando de tudo por causa do medo?

Como ensiná-los a vencer a timidez e os receios todos, para que possam se aproximar das meninas, dar o primeiro beijo e perceber que essas pequenas coisas são tão mais simples do que pensamos e que os monstros são criados apenas nas nossas mentes? Eu passei por tudo isso há 30 anos; muitas coisas mudaram. As festas não são como eram. Garotos e garotas não dançam juntos, não conseguem a mesma privacidade que permite uma aproximação. As garotas são mulheres aos 15 anos e, geralmente, já viveram muito mais experiências do que os garotos, que são ainda crianças maiores.

Eles têm medo. Angustiam-se. Sofrem. Retraem-se. Tentam ganhar confiança nas bobagens que falam com os amigos, mas as mudanças do mundo não conseguiram esperar pelo tempo de adaptação dos garotos.

E eu como mãe, olho e preocupo-me. Adoraria ter o poder de resolver todos os problemas e todas as dificuldades, mas não o tenho. Desabafo com outras pessoas as inseguranças que não posso demonstrar aos filhos nesses momentos. Para eles, estou ali, forte e observadora, pronta a me atirar para amortecer a queda quando esta acontecer.

E aguardo. Espero o tempo resolver tudo, fazer com que as inseguranças diminuam, com que eles cresçam e cerquem-se de pessoas de bom caráter como eles. Desejo que todos os momentos difíceis passem sem deixar muitas cicatrizes. E que, quando adultos, possam se lembrar de todas essas fases da vida com saudades.

– Sílvia Souza

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  Meu ex marido costumava dizer uma frase (não sei se é um ditado ou uma citação de outro autor) sobre a diferença entre ser mãe e ser pai: a mãe se joga para amortecer a queda do filho, enquanto o pai espera que ele caia e depois estende a mão para ajudá-lo a se […]


  • Alex André

    Você tem sido uma mãe exemplar durante todo esse tempo e vai continuar sendo até o final dos dias, minha querida Silvinha.
    Um grande beijo e uma ótima tarde para ti.

    • Olá, Alex…
      Obrigada por deixar uma opinião tão carinhosa! Espero que você esteja certo…


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