29.03.2016
Hortense Breast Feeding Paul de Paul Cezanne (1872)

Hortense Breast Feeding Paul de Paul Cezanne (1872)

 

Resolvi escrever sobre um assunto bastante complicado. Nesse texto estarão presentes: Sílvia Mãe, Sílvia Médica, Sílvia Mulher e Sílvia Feminista. Farei defesa e ataque ao aleitamento e pode acontecer de eu ser contraditória em alguns momentos.

Eu nasci em 1971. Minha mãe tentou me amamentar à exaustão (até sangrar) até perceber que eu estava emagrecendo progressivamente e precisou passar para as fórmulas artificiais que entravam no mercado como uma opção às mulheres que não conseguiam amamentar.

Quando essas fórmulas foram lançadas, chegou com elas o alento às mulheres que trabalhavam e queriam retomar logo suas profissões. Mas não tardou a chegar a reação.

Os trechos que serão citados são do livro “O Conflito: a mulher e a mãe” de Elisabeth Badinter.

É o aleitamento que está no cerne da revolução materna a que assistimos nos últimos vinte anos. Imperceptível, mas firmemente, ele ganha mais adeptos no mundo ocidental. (…) Nos anos 1970, ele é trocado pela mamadeira, o que permite às jovens mães continuar a trabalhar; as que amamentam, então, constituem uma pequena minoria. A inversão da tendência, hoje perceptível, deve-se principalmente à militância e à notável estratégia de uma associação de mães americanas: La Leche League (LLL).

Sete mulheres fundaram a LLL. Elas passaram a fazer reuniões de estímulo ao aleitamento e, aos poucos, os grupos foram se multiplicando dentro dos Estados Unidos.

Contam-se 17 mil animadoras em 1981, no momento em que o índice de aleitamento materno passa, nos Estados Unidos, de 20% em meados dos anos 1950 a 60% em meados nos anos 1980.

Os pontos fundamentais da filosofia da Liga do Leite:

  1. O aleitamento é a maneira mais natural e eficaz de compreender e de satisfazer as necessidades do bebê.
  2. A criança e a mãe precisam estar juntos imediatamente e frequentemente para estabelecer uma relação satisfatória e uma produção de leite adequada.
  3. Nos primeiros anos, o bebê tem uma necessidade enorme de estar com a sua mãe, que é tão básica como a sua necessidade de comer.
  4. O leite materno é o melhor alimento para a criança.
  5. Para o bebê de termo saudável, o leite materno é o único alimento necessário até que o bebê mostre sinais de precisar de sólidos, mais ou menos na metade do seu primeiro ano de vida.
  6. A relação de amamentação continua idealmente até o bebê superar essa necessidade.
  7. Uma participação consciente e ativa da mãe no parto, ajuda ao bom início da amamentação.
  8. A amamentação é conseguida e sustentada através do apoio, ajuda e companheirismo do pai do bebê. A relação única do pai com o seu bebê é um elemento importante no desenvolvimento da criança desde tenra idade.
  9. Uma boa nutrição significa ter uma alimentação variada e equilibrada, constituída por alimentos o mais próximo o possível do seu estado natural.
  10. Desde a primeira infância, as crianças precisam de pais carinhosos que as encorajem e estejam atentos a seus sentimentos.

A partir dessa reunião inicial de apenas sete mulheres, elas conseguiram difundir e pregar a amamentação e a permanência da mãe com o bebê pelo maior tempo possível, criticando as mães que precisavam deixar as crianças em creches para que pudessem voltar a trabalhar.

Não pretendo fazer uma pregação contra o aleitamento materno. Vários estudos apontam sua importância na prevenção de várias doenças do bebê e, sem dúvida alguma, ajuda muito a estreitar o vínculo da mãe com seu filho.

Eu consegui amamentar meus filhos por cerca de 3 meses. Entretanto, nos dois, precisei iniciar complementação com fórmulas infantis antes dos 2 meses. O leite foi progressivamente diminuindo, apesar das minhas tentativas de uso de medicamentos que estimulassem a lactação ou de todas as sugestões das crendices populares, como tomar canjica, vinho do Porto e inúmeras outras das quais já me esqueci.

E a mãe vê-se envolvida na frustração de não conseguir amamentar o quanto gostaria e nas cobranças de todas as pessoas à sua volta que reforçam a sensação de fracasso.

O fato de eu ser médica agravava ainda mais a situação. Afinal, aprendi na faculdade que todas as mulheres são capazes de amamentar e que não há falhas desde que o estímulo seja adequado.

É aí que reside o principal problema, no meu ponto de vista. Eu acho extremamente importante o aleitamento e sou uma estimuladora desse ato. Mas culpar a mãe pela falha ou pela dificuldade de amamentar, não ajuda nada. O sentimento de culpa já acompanha a mãe para onde quer que ela vá. Nós nos desdobramos, ficamos noites em claro, deixamos de comer, encurtamos o tempo dedicado a nós mesmas… e ainda somos acusadas por qualquer falha ou dificuldade que surja no meio do caminho. Não é justo!

E tenho outra crítica, nesse caso bastante pessoal, das mães que amamentam até que a criança tenha 2 ou mais anos de idade. Embora haja uma recomendação da OMS para que se mantenha o aleitamento até que as crianças tenham 2 anos de idade, acho essa recomendação importante em lugares onde possa faltar o acesso a alimentos de qualidade ou que tenham falta de água limpa ou de condições adequadas de higiene.

Não consigo conceber a “obrigação” da mãe de manter a amamentação até essa idade nos círculos sócio econômicos culturais que contam com melhores condições de vida. O que observo é quase uma escravidão da mãe à amamentação, um vínculo psicológico da mãe e do bebê e um prejuízo da relação homem-mulher (pai-mãe) enquanto casal, já que a criança está constantemente inserida nesse relacionamento.

Vejo mães que abandonam suas profissões, que se desdobram para tirar o leite e deixar para que o bebê possa recebê-lo pelas mãos de outras pessoas (geralmente a avó), que usam momentos de folga para correr até a casa e poder amamentar pessoalmente…

Não é à toa que cada vez menos mulheres querem ter filhos e, mesmo aquelas que querem, acabam se contentando com 1 ou 2. Mesmo havendo a licença maternidade, as exigências e cobranças feitas às mães são desumanas em uma sociedade em que se busca o respeito e a igualdade.

Volto a deixar claro que considero o aleitamento materno extremamente importante. Apenas gostaria que as obrigações fossem menores, que o olhar de compreensão fosse mais comum e que os interesses das mulheres-mães fossem tão importantes quanto os interesses e as necessidades dos bebês.

– Sílvia Souza

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  Resolvi escrever sobre um assunto bastante complicado. Nesse texto estarão presentes: Sílvia Mãe, Sílvia Médica, Sílvia Mulher e Sílvia Feminista. Farei defesa e ataque ao aleitamento e pode acontecer de eu ser contraditória em alguns momentos. Eu nasci em 1971. Minha mãe tentou me amamentar à exaustão (até sangrar) até perceber que eu estava […]


  • Lari Reis

    Menos obrigação e mais compreensão <3

    • É isso mesmo…
      Mais pontos a considerar na sua decisão sobre ter filhos ou não… 😀
      Beijo!

  • Anas há muitas

    Não sou de extremos em nada. Muito menos nisto. Quem quer amamenta, quem não quer, não o faz, e ninguém tem de recriminar!
    Para mim, a amamentação foi uma frustração. Queria imenso amamentar, acho lindo e benéfico para mãe e filhos, mas tive de lhe iniciar suplemento com uma semana de vida e, às 3 semanas, só me saíam pingas de leite. Tirei com a bomba para estimular e chorava ao ver a quantidade miserável que saía. E depois é uma bola de neve,a cabeça começa a não ajudar, ficava deprimida e o leite foi-se. Custou-me a aceitar, mas não sou menos mãe nem pior mãe por não amamentar!
    Só tenho inveja de quem consegue 🙂
    Ótimo artigo Sílvia.
    Beijo,
    Ana

    • É exatamente isso que eu queria deixar… não haver julgamentos extremados… e uma tentativa de diminuir as autocobranças e as cobranças das pessoas que convivem com a parturiente. Não é fácil. E a parte emocional interfere muito na produção do leite… quanto mais tensa e preocupada estiver a mulher, tanto mais difícil será o de desempenhar esse papel de amamentar.
      Beijo grande!

  • Amanda Hillerman

    Oi Sílvia! Tenho lido bastante a respeito de maternidade pois é um assunto crescente entre meu esposo e eu e desde já tento me informar ao máximo. Bom, minha mãe amamentou a mim e minha irmã até nossos 6 meses, a partir daí começamos a ter outros elementos na dieta, inclusive a mamadeira, acredito que eu talvez faça o mesmo com meus filhos.
    Tenho lido muitos textos de mães que não conseguem amamentar, algumas por dor, outras por pouco leite e outras por escolha própria, por outro lado vejo mães julgando as que não amamentam. Isso me parte o coração, mulheres e mães deveriam se manter unidas e respeitar a escolha da outra, não deveria vir justamente delas o julgamento. Dá uma olhadinha nesse vídeo que eu encontrei esses dias, acho que você vai gostar: https://www.youtube.com/watch?v=2K18y1W2Lek
    Beijos, Blog Amanda Hillerman

    • Adorei o video, Amanda! Foi impossível não chorar…
      E é exatamente o que acontece… Costumamos julgar com muita facilidade, sem nem mesmo sabermos sobre a história de vida das outras pessoas.
      Eu paguei minha língua em muitas situações:
      – quando dizia que não daria chupeta
      – que amamentaria até os 6 meses com exclusividade
      – que filho que fazia escândalo era por falta de firmeza dos pais
      – que para o filho comer de tudo basta colocar na mesa e dar exemplo
      E inúmeras outras coisas…
      Compaixão e empatia são importantíssimos… precisamos aceitar cada pessoa e tentar entender cada pessoa…
      Obrigada por enviar o vídeo!
      Beijo grande!


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