29.02.2016

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Primeira Publicação: 1961

Editora: Rocco (1998)

ISBN13:  9788532508744

Sinopse: Neste livro, o atordoado Martim se torna um novo homem após ter supostamente assassinado a mulher. Fugindo do crime, acaba descobrindo-se por inteiro, desprezando os antigos valores estabelecidos em sua vida. Sua fuga, em vez de isolá-lo, remonta à criação do homem, de um novo ser surgido do nada. Em vez de julgar os personagens culpados ou inocentes, Clarice Lispector busca fazer deles aprendizes do mundo, onde cada etapa funciona como uma gênese de um ser recém-criado.

 

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Sou uma grande admiradora da obra de Clarice Lispector. Tenho a impressão de que os livros dela falam diretamente com a minha alma. Talvez por haver essa característica tão intimista, acabe não agradando a todos os leitores.

“A Maçã no Escuro” é um romance da década de 1950, escrito enquanto Clarice morou nos Estados Unidos e concluído em 1956, em Washington. Há poucos personagens no romance e tive a impressão que cada personagem representava um lado da personalidade da própria escritora.

O livro é dividido em 3 partes:

  1. Como se faz um homem
  2. Nascimento do herói
  3. A maçã no escuro

Logo no início do livro, o personagem central da história, Martim, está fugindo após ter cometido um crime. Nenhum detalhe é revelado a respeito do crime ou do motivo na primeira parte. Em sua fuga, ele acaba parando na fazenda onde moram duas mulheres: Vitória e Ermelinda, a primeira que nunca se casou e a segunda, mais jovem, viúva.

Estaria ele descrevendo seu crime como um homem que pintasse num quadro uma mesa – e ninguém a reconhecesse porque o pintor a pintara do ponto de vista de quem está embaixo da mesa?

Martim trabalhava com números e se apresentou como Engenheiro. Apesar de estar acostumado ao trabalho intelectual, ele aceita a opção de desempenhar trabalho braçal da fazenda. O que ele buscava de fato era um lugar tranquilo para se esconder e ter o que comer e onde dormir. Vitória designava alguma atividade a ser realizada a cada dia. Ele desempenhava sua função sem questionar.

Estava admirado consigo mesmo. É que ele se tornara um homem perigoso. De acordo com as leis de caça, um animal ferido se torna um animal perigoso.

Se eu fosse me prender a fazer apenas a narrativa dos eventos da história contada no livro, talvez eu tivesse que escrever umas 10 páginas. Nas 335 páginas do livro, a descrição vai muito além dos fatos. A descrição é do íntimo de cada personagem, de todas as escolhas pelas quais passaram na vida, suas tristezas e insatisfações, seus medos e desilusões.

Martim sai de sua rotina pacata e infeliz e, a partir do seu crime, liberta-se para tomar suas próprias decisões e assumir as consequências delas. O trabalho na fazenda permite que ele evolua como homem, perceba a relação com o todo, com a Natureza; ele abandona totalmente o que era e tenta construir um novo homem, percebendo e refletindo nas coisas de que gosta, que deseja e onde encontra prazer.

Na segunda parte do livro, ele está mais estabelecido nesse novo homem. E cresce o contato das mulheres com ele, que está mais decidido e tem menos medo, sentindo-se, de certa forma, já redimido do crime que cometeu. Talvez o título do livro e a construção dos personagens remeta ao Éden (muito bem observado pela Márcia, que dividiu essa leitura comigo). Passa a haver um jogo de sedução com o homem como o centro desse novo mundo que se estabelecia para ele.

A Ermelinda tenta seduzi-lo, mas não gosta da ideia de ser ela mesma. Ela quer assumir o papel que imagina que possa ser o desejado pelo macho. Evita dar uma opinião sincera, esperando sempre uma concordância do outro sobre qualquer coisa que ela diga.

Sabia que era cedo para se mostrar a ele, e que poderia afugentá-lo se fosse verdadeira, as pessoas tinham tanto medo da verdade dos outros.

A Vitória sempre teve que ser uma mulher de pulso firme; teve que assumir a fazenda e a rudeza da vida no campo; ela deseja o homem ao mesmo tempo em que tem dificuldade em mostrar seu lado mais feminino e delicado. Martim, nesse momento, mantém seu silêncio, receoso, evitando mostrar de fato quem ele é (talvez até porque não saiba exatamente). Busca uma paz que ele não terá, porque teria que partir de dentro dele.

Corajosamente fizera o que todo homem tinha que fazer uma vez na vida: destruí-la.

Para reconstruí-la em seus próprios termos.

Nessa segunda parte, foi onde senti de forma mais evidente o diálogo da Clarice com ela mesma; como se cada personagem fosse parte dela, tentando fazer prevalecer sua opinião. Há, inclusive, trechos em que ela altera da narrativa em terceira pessoa para a narrativa em primeira pessoa, como se fosse uma distração e ela passa a contar o que se passa com ela mesma e não mais com os personagens do livro.

Na terceira parte, há o desfecho. A elucidação do crime e a justiça sendo feita. Mas é uma parte muito prolixa, com muita repetição de esclarecimentos, tornando-se um pouco cansativa.

Mesmo com essa conclusão mais tediosa, o livro é excelente. Tem essa conversa íntima, reflexiva, questionadora, na tentativa de encarar o papel que ocupamos e as formas de lidar com as nossas frustrações.

É que até este momento ele nada poderia ter feito – enquanto não tivesse recuperado em si o respeito pelo próprio corpo e pela sua própria vida, que era o primeiro modo de respeitar a vida que havia nos outros. Mas quando um homem se respeitava, ele então tinha enfim se criado à sua própria imagem. E então poderia olhar os outros nos olhos. Sem o constrangimento do nosso grande equívoco, e sem a mútua vergonha.

– Sílvia Souza

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  Primeira Publicação: 1961 Editora: Rocco (1998) ISBN13:  9788532508744 Sinopse: Neste livro, o atordoado Martim se torna um novo homem após ter supostamente assassinado a mulher. Fugindo do crime, acaba descobrindo-se por inteiro, desprezando os antigos valores estabelecidos em sua vida. Sua fuga, em vez de isolá-lo, remonta à criação do homem, de um novo ser surgido do […]


  • Marcia Cogitare

    Mais uma excelente resenha, eu não me arrisco a falar deste livro rs.

    A maçã no escuro é um desafio para os leitores iniciantes de Clarice mas vale cada página e reflexão levantada.

    Hug

    • Como assim você não se arrisca a falar desse livro, Márcia?
      Você fez as melhores observações durante nossa leitura…
      Ler Clarice é sempre um enorme desafio, porque é uma escritora que consegue falar direto com nossa alma… isso incomoda e nem todos conseguem tolerar essa exposição tão grande de quem somos…
      Um beijo grande!

      • Marcia Cogitare

        Fazer observações soltas é algo simples, quero ver colocar tudo num texto que seja coerente rs.

        E vc tem razão com Clarice vc acaba sendo exposto de forma hard e tem que ter coragem pra isso.

        Hug

  • Thamiris De Paiva Alves

    Estou começado a ler Clarice, acabei de ler A hora da estrela ejá estou interessada nele! Obrigada pela dica! 🙂

    • Olá, Thamiris! Tudo bem?
      Você gostou de “A Hora da Estrela”?
      Acho que a Clarice tem a capacidade de fazer com a gente se apaixone ou não tenha identificação com a obra dela… A cada livro dela, tenho a impressão que ela bagunça mais a minha alma…
      Beijo!

      • Thamiris De Paiva Alves

        Gostei bastante! 🙂


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