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1989 – O início

1989 – O início
1989 – O início

Dezessete anos. Cidade desconhecida. Nenhuma assistência. Começando a Faculdade de Medicina em uma época em que não havia celular nem internet. Era apenas eu enfrentando meus medos, angústias, inseguranças, encarando de perto minha solidão e meu isolamento.

Nunca tive facilidade de fazer amizades. Tenho a impressão que os amigos que persistem na minha vida ainda estão por perto porque são insistentes; não digo isso com orgulho… sei que é um dos meus maiores defeitos.

Nenhum dos meus colegas de cidade e de colégio entrou na mesma faculdade que eu. Estava verdadeiramente sozinha, por minha conta e risco.

De uma forma bastante natural, os primeiros contatos e amizades foram de outros alunos que se encontravam na mesma situação: jovens que vinham do interior enfrentar a faculdade na capital. Fomos aos poucos nos conhecendo; gente de Campinas, São José do Rio Preto, Avaré, Tietê, Tatuí, Botucatu e tantas outras cidades do estado. Éramos companhia uns aos outros nos finais de semana. Alguns moravam na moradia da faculdade; outros com algum parente e a maioria morava em apartamentos compartilhados com outros amigos.

Eu também fui morar com uma amiga, cerca de 3 meses depois do início das aulas. Uma amiga da minha cidade natal, que eu conhecia desde os 7 anos de idade, saiu da casa da tia para morar em um apartamento compartilhado com o irmão mais velho e me chamou para morar com eles. É claro que foi infinitamente melhor do que continuar no pensionato de freiras no centro de São Paulo. Mas eu ainda não me sentia em casa; sentia-me sempre uma visitante na casa de outra pessoa.

Foi logo nesse início de faculdade, no primeiro ou segundo mês, que eu me aproximei e tornei-me amiga daquele que viria a ser meu marido. Ele não era do interior. Paulistano, aproximou-se de mim como tantos outros rapazes que buscam as meninas bonitas. Nossa amizade foi crescendo até que nascesse uma paixão. Eu, na minha carência, distante dos carinhos da família, entreguei-me a esse sentimento que surgira. Eu ganhava flores, poesias, bilhetes… tudo era lindo para uma menina romântica como eu.

Mas não existe conto de fadas. A vida real não é como as histórias dos livros. Estávamos juntos havia um mês (embora parecesse muito mais) e ele começou a se afastar, ficou frio, distante… até que eu não aguentei mais aquele tratamento e rompi o relacionamento que me dava base emocional na cidade. Era o que ele queria. Afinal, tinha outra namorada, a mesma desde o colégio. Foi a primeira apunhalada de muitas que levei na minha vida. Comecei a perceber que eu não sobreviveria a São Paulo com a minha inocência e a minha ingenuidade. Ou eu criava um escudo de proteção ou as cicatrizes seriam inúmeras.

Como eu já escrevi outras vezes, São Paulo sempre me desafiou e continua desafiando. Insisti porque sou teimosa e enfrento todas as dificuldades para alcançar meus objetivos.

O início da faculdade foi difícil não pelas matérias ou pela intensidade dos estudos. O mais custoso foi construir meu escudo, fortalecer-me emocionalmente, tentar criar uma estrutura própria que me permitisse continuar vivendo e lutando.

E a faculdade tinha um aspecto interessante. Estavam ali reunidos os melhores alunos dos melhores colégios do estado. Cada um de nós era a excelência da escola de origem, conhecido e reverenciado. Ali, entre os 180 alunos, cada um de nós era apenas mais uma mente brilhante. Aos poucos, alguns se destacaram; mas naquele início, éramos muito parecidos. E ainda havia a necessidade de cada um saber trabalhar essa mudança de status.

– Sílvia Souza

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2 Comments
  • Lucas Mendes disse:

    Imagino a dificuldade de se adaptar.
    No meu caso, vim de uma cidade maior para uma menor.
    E, atualmente, já sinto que essa cidade ficou grande demais…

    • Olá, Lucas!
      Bom te ver comentando aqui…
      As cidades menores tendem a ser mais acolhedoras e (eu acho que) isso facilita a adaptação. Estou em São Paulo Há 27 anos; gosto da cidade. Meus filhos nasceram aqui. Mas ainda continuo achando tudo impessoal, os contatos superficiais, cada um envolvido apenas no seu próprio mundinho…
      Abraço!

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