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Sonhos

Infidelidade 1
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Ela acordou atormentada por sonhos novamente. Todas as noites aqueles sonhos. São cenários diversos, histórias diferentes, mas a essência e o desconforto são os mesmos. Ela acorda tomada pelo incômodo de um desejo que não quer admitir; como se fosse algo proibido na vida que lhe resta. E não tardam a aparecer a censura e o medo. É sempre a mesma coisa.

Quando a manhã chega e a luz do Sol entra pela janela, o sonho se vai, mas permanece aquela dor. Porque ela não quer encarar os problemas. Não, não é por nenhuma fuga. Ela simplesmente não sabe como resolver aquilo dentro dela.

E naquela manhã, especificamente naquela manhã, ela quis chorar. Mas não conseguiu. O soluço ficou contido no peito e as lágrimas apenas umedeceram seus olhos.

E ela recordou tantas lembranças adormecidas. Não foi de propósito. Ela não queria acordar nada. Tudo deveria permanecer inerte e mudo dentro dela. Esquecido.

Percebeu como compreendia tão pouco sobre o funcionamento do mundo, dos pensamentos, dos sonhos, dos desejos, das pessoas. Não tinha controle e isso apenas a angustiava mais.

Imaginou se houvesse um encontro, algo casual, como estamos sempre sujeitos. O que faria? Deveria negar sua vida, seu passado, sua história? Deveria passar ao largo, desviar o olhar, fingir desconhecimento?

Fingir! Estava cansada de fingimentos, do faz de conta que a vida pede, das máscaras, das mentiras, de simular uma vida perfeita que não existe (para ninguém). E mais uma vez se sentia confusa. Tínhamos que mostrar nossas vidas imperfeitas? Ou simplesmente vivemos dentro da nossa intimidade, sem prestar contas a ninguém? E se vier uma pergunta, a fatídica: “Como você está?”. Deve-se vestir a expressão de paisagem e responder educadamente que “está tudo ótimo” ou ser sincero e dizer “Isso não é da sua conta”, correndo o risco de romper mais um contato, como tantos outros que já tinham sumido da sua vida. Simplesmente porque estava cansada da falsidade das pessoas e das relações.

E ao longo da manhã que se seguiu àquele sonho e ao despertar daquelas lembranças, decidiu que se houvesse o encontro, aquele casual que imaginou, ela não iria fingir. Iria se aproximar e falar, falar tudo aquilo que estava comprimido dentro dela. Iria contar tudo, ininterruptamente, evitando ser silenciada. Afinal, não tinha o que esconder.

Estava cansada de mentiras.

Talvez sua existência não coubesse nesse mundo.

– Sílvia Souza

(07-09-2015)

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