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Conversas

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Eu cheguei e me sentei. Teria que esperar mais de uma hora, mas tinha meu livro comigo. Imagino que eu já seja conhecida nos lugares que costumo frequentar como a “mulher do livro”. Onde quer que eu vá sozinha, faço do livro minha companhia, como se o escritor estivesse ali comigo, me contando uma história. Mas esse comportamento traz o grande inconveniente de me alienar de tudo o que acontece à minha volta. Simplesmente não vejo. E com muita frequência, não escuto também. Entro naquela conversa particular na qual apenas eu ouço o autor falando comigo.

Há sim os momentos em que observo as pessoas, porque isso é algo que me agrada: ver, imaginar suas vidas, suas histórias, gostos, sonhos. Mas não foi o que aconteceu nesse tempo que eu deveria esperar, sentada naquela sala, até o horário do filme.

Fiz minha imersão no mundo das palavras, sentada em um canto onde não era vista por quase ninguém. Tentei desligar todos os outros sentidos que me mantinham conectada ao mundo real, mas não foi possível. Simplesmente não tinha como não escutar. Era algo que estava além da minha capacidade de abstração.

A senhora falava alto, sem se preocupar se estava sendo ouvida por outras pessoas ou não. Ela estava com seu filho, na faixa dos 50 anos, e ela tinha a idade para ser a mãe de um homem de 50 anos. O filho estava divorciado e a mãe era sua companhia para ir ao cinema, uma paixão de ambos. Ela comentava sobre filmes os mais variados. E sobre todos os filmes e todas as pessoas, havia sempre uma opinião comum: não gostava de nada nem de ninguém! Todas as pessoas eram desagradáveis, desprezíveis. Os filmes eram péssimos e ela sempre se arrependia de tê-los visto.

Reclamava da ex mulher do filho, de suas dores intermináveis, do sono ruim, dos programas da TV, de festas para as quais era convidada, do preço das roupas (mas que ela tinha comprado em liquidação), do trabalho da costureira que tinha ficado péssimo.

Eu não fazia questão de escutar. Aliás, se eu pudesse, teria desligado minha audição naquele tempo de espera. Procurava me concentrar no livro, cujas palavras se misturavam com aquelas que entravam pelos meus ouvidos.

Fiquei pensando se isso é uma regra. Todas as pessoas que envelhecem ficam intolerantes e sentem a necessidade de reclamar de tudo?

Não creio que seja assim. Minha avó não era assim, embora ela reclamasse bastante.

Não quero isso pra mim. Será que conseguirei evitar?

– Sílvia Souza

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8 Comments
  • M.Raydo disse:

    Deve ser uma véia aqui da Mooca! Ô povo que grita e reclama da vida! kkkk
    É bem provável que sim, você será mais uma reclamona na face da terra!
    Eu era tão paciente e feliz! Um cara sensacional! Uma outra pessoa! :p
    Agora, já tão diferente, me pergunto se um dia serei tranquilo novamente! Acho que não!

  • Também gosto de imaginar para onde as pessoas estão indo , porque estão indo , quem são ( coisas de pessoas crazy !) Rsrsrs … mas sobre ser intolerante , acredito que quase todo mundo é ou está se tornando .Mas não é um vírus ( embora pareça!) , e cada um pode evitar se tornar rabugento . ((( ESPERO QUE EU CONSIGA EVITAR rs!)

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