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“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #8: “Preciosidade”

“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #8: “Preciosidade”
“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #8: “Preciosidade”

Mais um comentário a um conto de Clarice Lispector, contido no livro “Todos os Contos”. Esta publicação é parte do Projeto Clarice Lispector, idealizado pela Marcia Cogitare do blog Surtos Literários. A publicação da Marcia pode ser vista clicando aqui.

O conto “Preciosidade” faz parte do livro “Laços de Família”. A personagem é uma menina:

Tinha quinze anos e não era bonita. Mas por dentro da magreza, a vastidão quase majestosa em que se movia como dentro de uma meditação. E dentro da nebulosidade algo precioso. Que não se espreguiçava, não se comprometia, não se contaminava. Que era intenso como uma joia. Ela.

A menina acordava antes de todos da casa, porque precisava ir para a escola. Tudo era feito lentamente, com preguiça. Quase nunca tomava o banho, com a desculpa de que não tinha tempo. Comia pouco do café da manhã e ia para o ponto de ônibus, percorrendo a rua deserta ao amanhecer.

No ônibus e na rua, ela procurava andar séria, mantendo a distância das pessoas, em especial dos homens. Até mesmo dos meninos, em sua escola, procurava passar sem ser notada. Sentia-se confortável na sala de aula.

Até que, enfim, a classe de aula. Onde de repente tudo se tornava sem importância e mais rápido e leve, onde seu rosto tinha algumas sardas, os cabelos caíam nos olhos, e onde ela era tratada como um rapaz. Onde era inteligente. A astuciosa profissão. Parecia ter estudado em casa.

E, mais uma vez, a mulher que não podia ser criada para ter destaque… se a menina era inteligente, “era tratada como um rapaz”.

A menina ficava a maior parte do tempo sozinha com a empregada; sem ninguém com quem falar. Dentro de casa, estava confortável.

A tarde toda transformando-se em interminável e, até todos voltarem para o jantar e ela poder se tornar com alívio uma filha, era o calor, o livro aberto e depois fechado, uma intuição, o calor: sentava-se com a cabeça entre as mãos, desesperada.

Mas a jovem, inocente, virgem, inteligente, estudiosa, magra, frágil, quieta… a menina, enfim, precisava ganhar a lição que mostraria a ela o lugar da mulher, sua vulnerabilidade extrema, em um mundo onde os homens se sentem os donos.

Era uma manhã ainda mais fria e escura que as outras, ela estremeceu no suéter. A branca nebulosidade deixava o fim da rua invisível. Tudo estava algodoado, não se ouviu sequer o ruído de algum ônibus que passasse pela avenida. Foi andando para o imprevisível da rua.

E ao caminhar pela rua escura em direção ao ponto de ônibus, viu que dois rapazes vinham em direção contrária. Ela pensou em voltar. Mas, ao mesmo tempo, queria enfrentar seu receio e não viver no eterno receio de enfrentar as situações adversas. Eles se aproximavam e ela receava que eles a olhassem, que pensassem alguma coisa.

Fazei com que eles não digam nada, fazei com que eles só pensem, pensar eu deixo.

Neste momento do conto, mais uma vez, ficou comprovada a genialidade de Clarice Lispector com as palavras. Sua forma de descrever os acontecimentos que se seguiram é emocionante. Sem dizer nada concretamente, ela diz tudo. E nos toca até o mais profundo de nossa alma.

O que se seguiu foram quatro mãos difíceis, foram quatro mãos que não sabiam o que queriam, quatro mãos erradas de quem não tinha a vocação, quatro mãos que a tocaram tão inesperadamente que ela fez a coisa mais certa que poderia ter feito no mundo dos movimentos: ficou paralisada.

A menina ficou quieta, não gritou, não correu, não brigou. E quando os dois rapazes fugiram, ela recolheu seu material e foi para a escola, onde chegou atrasada, pálida, apavorada. Mas não teve coragem de dizer nada a ninguém… nem na escola… nem em casa.

Fiquei imaginando essa menina e seu pavor. O pavor maior era o de enfrentar o que tinha acontecido ou o de relatar às outras pessoas? O que imagina uma mulher vítima de uma violência sexual? Que ela tem alguma responsabilidade na ocorrência? Será que isto é imaginado?

Às vezes, penso se as mulheres nasceram com a “culpa” em seu código genético. Elas se sentem responsáveis mesmo quando sofrem repressão, violência, desigualdade, preconceito… Aprendemos a carregar os pecados do mundo nas costas. Por mais que seja irreal a fábula de Adão e Eva, a mulher será eternamente a culpada.

Clarice Lispector me surpreende sempre com os mais diversos aspectos do universo feminino que ela descreve em suas obras. Tenho a sensação de que, mesmo quando ela retrata um personagem masculino, está, no fundo, querendo mostrar algum problema que as mulheres ainda enfrentam em suas vidas.

Mais uma vez, deixo minha dica: não deixem de ler Clarice Lispector.

 

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1 Comment
  • Marcia Cogitare disse:

    Silvia, eu pensei que estava viajando sobre ter havido uma cena de abuso. Ela não deixa tão patente né?. É apenas sugerido.

    Hug

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